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Por que a Bíblia Católica tem sete livros a mais que a Bíblia usada pela maioria dos protestantes?

Os sete livros deuterocanônicos estavam na Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento usada pelos primeiros cristãos, foram reafirmados por concílios do século IV e por Florença (1442), e confirmados solenemente pelo Concílio de Trento em 1546.

Por que a Bíblia Católica tem sete livros a mais que a Bíblia usada pela maioria dos protestantes?
Pintura: Elia Naurizio, «Congregação geral do Concílio de Trento», séc. XVII; fotografia de Laurom, 2009 — CC BY-SA 3.0
Objeção
A Igreja Católica "acrescentou" livros à Bíblia que os protestantes não reconhecem?

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A questão costuma ser formulada ao contrário do que a história sugere: não é tanto que a Igreja Católica "acrescentou" livros, mas que os reformadores protestantes do século XVI, seguindo o cânon judaico palestinense, passaram a considerar à parte — e terminaram por excluir das Bíblias protestantes — sete livros que os cristãos liam havia séculos: Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico (Sirácida) e Baruc, além de trechos acrescentados a Ester e Daniel. Esses livros faziam parte da Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento usada por judeus de língua grega e pelos primeiros cristãos, e citada com frequência pelo próprio Novo Testamento. A confusão terminológica é antiga: católicos chamam-nos "deuterocanônicos" (do grego, "do segundo cânon") e protestantes, "apócrifos".

Esses livros já constavam de listas canônicas antigas. O chamado Decreto Gelasiano (Decretum Gelasianum de libris recipiendis et non recipiendis), tradicionalmente atribuído ao Papa Gelásio I (492-496), inclui em seu segundo capítulo um catálogo completo das Escrituras; hoje se considera que essa lista reflete, em parte, um cânon romano ligado ao Papa Dâmaso I e ao Concílio de Roma de 382, ainda que o texto tenha recebido sua forma final por volta de 519-553, obra de um autor anônimo. Listas equivalentes foram adotadas pelos concílios norte-africanos de Hipona (393) e de Cartago (397), sob forte influência de Santo Agostinho. Mais tarde, o Concílio de Florença (1442), na bula Cantate Domino, voltou a enumerar os livros canônicos.

No século XVI, a questão reabriu-se com o avanço da filologia renascentista. Já em 1520, Andreas Bodenstein von Karlstadt, no opúsculo De canonicis Scripturis libellus (Wittenberg), qualificou os sete livros como "apócrifos". Martinho Lutero, seguindo o critério da "veritas hebraica" que atribuía a São Jerônimo, na sua tradução alemã da Bíblia de 1534 (Biblia, das ist die gantze Heilige Schrift deutsch) não os removeu, mas os colocou no fim do volume sob o título "Apokrypha", com a ressalva: "Apokrypha, das sind Bücher, so nicht der heiligen Schrift gleich gehalten, und doch nützlich und gut zu lesen sind" ("Apócrifos, isto é, livros não equiparados à Sagrada Escritura, mas úteis e bons de ler"). É digno de nota que São Jerônimo, no prólogo aos livros de Samuel e Reis — o chamado Prologus Galeatus —, tenha de fato distinguido os livros fora do cânon hebraico, embora na prática tratasse alguns deles quase como canônicos; a Igreja ocidental, porém, não adotou sua classificação estrita.

Diante da contestação protestante, o Concílio de Trento, em sua quarta sessão (8 de abril de 1546), definiu solenemente o cânon, listando os livros "inteiros com todas as suas partes" e lançando anátema a quem não os recebesse — mencionando explicitamente, entre outros, "Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, dois livros dos Macabeus". Fixou-se o cânon de 73 livros: 46 no Antigo Testamento e 27 no Novo. Convém lembrar que a eliminação dos deuterocanônicos das Bíblias protestantes não foi imediata: em 1618-1619, alguns calvinistas no Sínodo de Dordrecht propuseram sua supressão, e só em 3 de maio de 1826 a Sociedade Bíblica inglesa decidiu que esses escritos não deveriam mais ser difundidos junto com a Sagrada Escritura.

Fontes

(6)
  • Concílio de Trento, Sessão IV, Decretum de Canonicis Scripturis (8 de abril de 1546)
  • Catecismo da Igreja Católica, n. 120
  • Decretum Gelasianum de libris recipiendis et non recipiendis (cânon atribuído ao Concílio de Roma de 382)
  • Concílio de Florença, bula Cantate Domino (1442)
  • Bíblia alemã de Martinho Lutero (1534), seção «Apokrypha»
  • Wikipedia (pt), «Desenvolvimento do cânone do Antigo Testamento» e «Livros deuterocanônicos»

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