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Apologética

O Purgatório tem fundamento bíblico, já que o termo não aparece literalmente nas Escrituras?

A palavra "purgatório" não está na Bíblia, mas a Igreja vê ali a purificação final dos salvos e a eficácia da oração pelos falecidos (2Mc 12,46), doutrina formalizada em Lyon II (1274), Florença (1439) e Trento (1563).

O Purgatório tem fundamento bíblico, já que o termo não aparece literalmente nas Escrituras?
Objeção
Como a Igreja defende uma doutrina cuja palavra nem aparece na Bíblia?

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É correto que a palavra "purgatório" não ocorre literalmente em nenhum livro bíblico — o termo (do latim tardio purgatorium, "lugar de purificação") consolidou-se depois, na tradição teológica do Ocidente. Isso, porém, não o distingue de outros termos centrais e amplamente aceitos entre cristãos, como "Trindade" ou "Encarnação", que também não aparecem literalmente na Bíblia, mas expressam um conteúdo que a Igreja entende estar nela presente. A base bíblica inclui 2 Macabeus 12,43-46 — Judas Macabeu manda oferecer sacrifício expiatório pelos companheiros mortos, e o texto conclui que "é um santo e piedoso pensamento orar pelos mortos, para que sejam livres dos seus pecados" —, texto que católicos e ortodoxos aceitam como canônico e a maioria das tradições protestantes não, e passagens como 1 Coríntios 3,11-15, sobre uma obra que se salva "como através do fogo", além de Mateus 12,32, que distingue o perdão "neste mundo" do "mundo vindouro". É significativo que a própria Bíblia de Almeida, em edição protestante, reconheça em nota que 1 Coríntios 3 fundou historicamente a doutrina.

A prática de orar pelos mortos é atestada muito antes de qualquer definição medieval. Tertuliano, por volta de 211, referia-se à oração pelos defuntos como "ordenança apostólica"; Agostinho rezou pela alma de sua mãe Mônica (Confissões IX, 13) e tratou das penas expiatórias após a morte na «Cidade de Deus» (XXI, 24-26); Gregório Magno, nos «Diálogos» (livro IV, cap. 41), refere-se a um fogo purificador que purga as faltas leves antes do Juízo. A doutrina foi sendo sistematizada pelo Magistério. O Segundo Concílio de Lyon (1274), convocado no contexto da tentativa de reunião com a Igreja grega, empregou a expressão "penas purgatoriais". O Concílio de Florença — transferido de Ferrara para Florença em 10 de janeiro de 1439 — aprovou em 6 de julho de 1439 a bula de união «Laetentur Caeli», lida pelo cardeal Giuliano Cesarini em latim e pelo cardeal Bessarion em grego, na qual se professa que as almas dos que morrem com faltas leves ou penas temporais "são purificadas depois da morte e podem ser ajudadas com as orações de sufrágio da Igreja". O Concílio de Trento, na Sessão XXV (3-4 de dezembro de 1563), ao tratar do Purgatório, ensinou que a Igreja Católica, "instruída pelo Espírito Santo, apoiada nas Sagradas Letras e na antiga Tradição dos Padres", crê que existe o Purgatório e que "as almas que nele estão detidas são aliviadas pelos sufrágios dos fiéis, mas principalmente pelo aceitável sacrifício do altar".

Convém corrigir um erro frequente em polêmicas: a afirmação de que o Purgatório teria sido "criado" em Florença (1439) ou em Trento é histórica e doutrinalmente inexata, pois já havia referência a penas purgatoriais em Lyon II (1274) e testemunho patrístico desde os primeiros séculos — esses concílios formalizaram uma crença já praticada, não a inventaram. O Catecismo da Igreja Católica (nn. 1030-1032) define o Purgatório como "a purificação final dos eleitos, que é completamente distinta do castigo dos condenados": nele entram apenas os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas ainda imperfeitamente purificados, pois "nele não entrará coisa alguma impura" (Ap 21,27).

A interpretação do "fogo" foi aprofundada por Bento XVI. Na encíclica «Spe Salvi» (2007, nn. 45-48), ele retoma a hipótese de "teólogos recentes" segundo a qual "o fogo que simultaneamente queima e salva é o próprio Cristo, o Juiz e Salvador". Nessa leitura, o Purgatório não é sobretudo um lugar de tormento temporal, mas o encontro transformador da alma com o amor purificador de Cristo: "é o encontro com ele que, queimando-nos, nos transforma e liberta para nos tornar verdadeiramente nós mesmos". Em catequese sobre Santa Catarina de Gênova (1447-1510), autora do célebre «Tratado do Purgatório», o mesmo Papa sintetizou: "O Purgatório não é um elemento das entranhas da terra, não é um fogo externo, mas um fogo interno." A doutrina articula-se, assim, com a comunhão dos santos: a Igreja peregrina na terra pode socorrer, pela oração e pelo sacrifício, os irmãos que se purificam, sem que isso interrompa a união entre os que estão na terra e os que descansam na paz de Cristo (CIC § 955).

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Fontes

  • 2 Macabeus 12,43-46
  • 1 Coríntios 3,11-15
  • Mateus 12,32
  • Catecismo da Igreja Católica, nn. 1030-1032; § 955
  • Segundo Concílio de Lyon (1274)
  • Concílio de Florença, bula de união «Laetentur Caeli» (6 de julho de 1439)
  • Concílio de Trento, Sessão XXV, Decreto sobre o Purgatório (1563)
  • Bento XVI, encíclica «Spe Salvi» (2007), nn. 45-48, e catequese sobre Santa Catarina de Gênova
  • Tertuliano, «De Corona» e «De Monogamia» (c. 211); Agostinho, «Confissões» IX, 13, e «Cidade de Deus» XXI, 24-26; Gregório Magno, «Diálogos» IV, 41

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