Personagens Bíblicos
Noé
Patriarca justo que, por mandado divino, constrói uma arca para salvar sua família e pares de animais do Dilúvio.

- Tipo
- Patriarca
- Testamento
- Antigo Testamento
- Referência bíblica
- Gênesis 6-9
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Descendente de Adão pela linhagem de Sete (Gn 5), Noé é apresentado como «um homem justo, íntegro entre seus contemporâneos, e que caminhava com Deus» (Gn 6,9) — o único merecedor de salvação numa humanidade que Deus vê corrompida pela violência (Gn 6,11-13). Recebe então a ordem de construir uma arca de madeira de gôfer, com três andares, revestida de betume por dentro e por fora, para abrigar sua família — a esposa, os três filhos Sem, Cam e Jafé, e as respectivas esposas — e pares (sete de cada espécie pura, segundo Gn 7,2) de todos os animais, enquanto um dilúvio de quarenta dias e quarenta noites cobriria a terra como castigo pela maldade humana.
O relato bíblico do Dilúvio ecoa e ao mesmo tempo transforma tradições muito mais antigas da Mesopotâmia, como o mito sumério-acádico de Utnapishtim, narrado na Epopeia de Gilgamesh, e o Poema de Atrahasis: em ambos, um herói é avisado por um deus para construir um barco e escapar de uma inundação universal. A diferença teológica é decisiva — enquanto nos mitos mesopotâmicos os deuses destroem por capricho ou irritação com o barulho dos homens, no Gênesis o dilúvio é resposta moral à corrupção e à violência, e Deus age com justiça, poupando o justo Noé e renovando, por meio dele, toda a criação. Depois de a arca repousar sobre os montes de Ararate e as águas baixarem — confirmadas pelo voo do corvo e, sobretudo, da pomba que retorna com um ramo de oliveira (Gn 8,11), imagem depois incorporada à iconografia cristã da paz e do Espírito Santo —, Noé oferece um sacrifício de ação de graças.
Deus então estabelece com Noé, seus descendentes e «toda criatura viva» uma aliança universal — a primeira aliança explícita da Bíblia —, prometendo nunca mais destruir toda carne pelas águas de um dilúvio, e dá o arco-íris como sinal perpétuo dessa promessa (Gn 9,8-17). É também a Noé que são dados os preceitos que a tradição judaica chamaria mais tarde de «leis noéticas» — proibição de derramar sangue humano e de comer carne com sangue —, entendidas como o mínimo moral exigido de toda a humanidade, e não apenas do povo eleito. A tradição rabínica dos séculos seguintes, refletida no Talmude e no Midrash, amplia a figura de Noé como «pregador de justiça» que, durante os 120 anos de construção da arca, teria advertido em vão seus contemporâneos para que se arrependessem.
A tradição cristã, já em textos do Novo Testamento (1Pd 3,20-21), leu a água do Dilúvio como prefiguração do Batismo, que salva «não removendo a sujeira do corpo, mas pedindo a Deus uma consciência reta»; a arca, por sua vez, tornou-se símbolo patrístico da Igreja, único lugar de salvação em meio ao naufrágio do pecado. Episódio final e menos edificante da vida de Noé é sua embriaguez após plantar uma vinha e a maldição lançada sobre Canaã, filho de Cam, por este ter zombado da nudez do pai (Gn 9,20-27) — narrativa usada, de modo trágico e distorcido, séculos depois para justificar a escravidão de povos africanos, leitura hoje unanimemente rejeitada pela exegese católica.
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