História da Igreja
O Papado de Avinhão (1309-1377)
Período de quase setenta anos em que sete papas, todos franceses, residiram em Avinhão em vez de Roma, sob forte influência da Coroa francesa, até o retorno de Gregório XI a Roma em 1377.

- Período
- Idade Média (1309-1377)
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O pano de fundo imediato do Papado de Avinhão é o violento conflito entre o papa Bonifácio VIII e o rei Filipe IV, o Belo, da França, no início do século XIV. Bonifácio, na bula «Unam Sanctam» (1302), afirmara em termos categóricos a submissão de todo poder temporal à autoridade espiritual do papado; a resposta de Filipe IV foi enviar agentes que, em setembro de 1303, no episódio conhecido como o «atentado de Anagni», sequestraram e agrediram fisicamente o papa idoso — episódio do qual Bonifácio nunca se recuperaria, morrendo poucas semanas depois. Esse desfecho deixou claro que o poder político dos reinos nacionais emergentes já superava, na prática, a autoridade temporal do papado medieval.
Após o breve pontificado de Bento XI, o conclave de 1305 elegeu, sob forte influência da Coroa francesa, o arcebispo de Bordeus, Bertrand de Got, que tomou o nome de Clemente V — o primeiro de uma sucessão de sete papas franceses que marcariam os setenta anos seguintes. Clemente V nunca chegou a visitar Roma após sua eleição: coroado em Lyon, na presença do próprio Filipe IV e de seu irmão, passou os primeiros anos de pontificado transitando por diferentes cidades francesas até se fixar definitivamente, em 1309, em Avinhão, cidade situada às margens do Ródano que, embora então integrada ao Sacro Império (Reino de Arles) e não ao reino da França, ficava sob órbita direta da influência política francesa. Sob pressão do rei francês, Clemente V presidiu ainda o processo que levou à supressão da Ordem dos Templários no Concílio de Vienne (1311-1312), um episódio amplamente visto pela historiografia como subordinação do papado aos interesses da Coroa.
Ao longo de sete pontificados sucessivos — Clemente V (1305-1314), João XXII (1316-1334), Bento XII (1334-1342), Clemente VI (1342-1352), Inocêncio VI (1352-1362), Urbano V (1362-1370) e Gregório XI (1370-1378), todos franceses —, Avinhão se consolidou como sede papal plena. O imponente Palácio dos Papas, um dos maiores e mais elaborados conjuntos palacianos do gótico tardio, foi erguido em duas fases principais: o «Palácio Velho» (Palais Vieux), fortaleza sóbria construída por Bento XII a partir de 1335 sobre o Rocher des Doms, e o «Palácio Novo» (Palais Neuf), mais faustoso, acrescentado por Clemente VI. A cúria tornou-se cada vez mais centralizada e burocratizada, com avanços administrativos reais na cobrança de tributos eclesiásticos, na organização bancária e na justiça canônica, fatores que a historiografia costuma citar como legado administrativo durável.
Ainda assim, a proximidade geográfica e política com a Coroa francesa comprometeu, aos olhos de boa parte da cristandade — sobretudo da Itália, da Inglaterra e do Sacro Império —, a independência espiritual dos papas avinhonenses: dos 134 cardeais criados ao longo desse período, 111 eram franceses, muitos deles parentes dos próprios pontífices, uma desproporção que alimentava a suspeita de que o papado avinhonense servia, na prática, aos interesses do reino da França. Sob Clemente VI, que fora arcebispo de Ruão e conselheiro de Filipe VI, essa vinculação tornou-se ainda mais estreita; historiadores modernos, porém, matizam essa leitura, observando que a centralização administrativa respondia também a finalidades próprias da Igreja.
O período ficou conhecido, já pelos contemporâneos, por analogia com o exílio bíblico do povo de Israel na Babilônia, como o «cativeiro babilônico» da Igreja — termo que o próprio poeta e humanista italiano Francesco Petrarca, hóspede da corte papal em Avinhão, ajudou a popularizar em suas críticas à luxúria e à corrupção que via na cúria avinhonense. Vozes influentes, como as de Santa Brígida da Suécia e sobretudo de Santa Catarina de Sena, pressionaram insistentemente pelo retorno do papado a Roma, argumentando que a sé de Pedro pertencia por direito e por tradição à cidade dos apóstolos Pedro e Paulo.
O papado só retornaria definitivamente a Roma quando Gregório XI, sensível a essas pressões e preocupado com a deterioração da autoridade papal sobre os próprios Estados Pontifícios na Itália, abandonou Avinhão em 13 de setembro de 1376 e chegou a Roma em 17 de janeiro de 1377, transferindo a corte de volta à Cidade Eterna. Sua morte, pouco mais de um ano depois, em março de 1378, abriria caminho para a crise ainda maior e mais duradoura do Grande Cisma do Ocidente, quando a cristandade latina se veria dividida entre obediências papais rivais — uma em Roma e outra em Avinhão — por quase quarenta anos.
Fontes
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Santa Catarina de Sena
Santos
Mística leiga dominicana do século XIV, que convenceu o papa Gregório XI a retornar de Avinhão a Roma.

Clemente V
Papas
Papa francês do início do século XIV que transferiu a sede papal para Avinhão, dando início ao período conhecido como Cativeiro de Avinhão.

João XXII
Papas
Segundo papa do período de Avinhão, envolvido em controvérsia com os franciscanos espirituais sobre a pobreza de Cristo e, ao fim da vida, em polêmica teológica sobre a visão beatífica.

Gregório XI
Papas
Papa do século XIV que, atendendo em parte aos apelos de Santa Catarina de Sena, encerrou o Cativeiro de Avinhão e retornou a Roma em 1377.