História da Igreja
As Cruzadas
Série de expedições militares entre os séculos XI e XIII, convocadas para socorrer o Império Bizantino e retomar a Terra Santa do domínio muçulmano.

- Período
- Idade Média (1095-1291)
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Em novembro de 1095, o papa Urbano II encerrou o Concílio de Clermont, na França, com um sermão que se tornaria um dos discursos mais consequentes da história medieval: respondendo a um pedido de auxílio militar do imperador bizantino Aleixo I Comneno, ameaçado pelo avanço dos turcos seljúcidas na Ásia Menor, Urbano exortou a cavalaria cristã da Europa ocidental a interromper as guerras entre si e a partir em armas para socorrer os cristãos orientais e libertar Jerusalém e o Santo Sepulcro do domínio muçulmano — a cidade estava sob controle islâmico desde o século VII, e o acesso de peregrinos cristãos havia se tornado mais difícil sob o novo domínio seljúcida. Como incentivo espiritual, o papa prometeu indulgência plenária, perdão de todas as penas temporais devidas pelos pecados, a quem participasse da expedição por motivos de fé.
A resposta popular superou em muito as expectativas: ao lado dos exércitos nobres que partiram organizadamente sob líderes como Godofredo de Bulhão, Boemundo de Tarento e Raimundo de Toulouse, formou-se também uma onda espontânea e mal armada de camponeses e pobres, conhecida como a Cruzada Popular ou Cruzada dos Pobres, liderada pelo pregador Pedro, o Eremita, que partiu antes dos exércitos regulares e foi praticamente dizimada pelos turcos na Anatólia. A Primeira Cruzada, a mais bem-sucedida de todas as expedições, conquistou Jerusalém em 15 de julho de 1099, após um cerco brutal que terminou em massacre generalizado da população muçulmana e judaica da cidade — episódio de violência que a própria historiografia cristã posterior reconheceria como profundamente contraditório com o ideal evangélico que supostamente motivava a expedição. Da conquista nasceram quatro Estados cruzados latinos no Oriente: o Reino de Jerusalém, o Condado de Trípoli, o Principado de Antioquia e o Condado de Edessa.
Nas décadas seguintes, à medida que as potências muçulmanas se reorganizavam sob líderes como Zengi, Nur al-Din e, sobretudo, Saladino — que unificou o Egito e a Síria sob seu comando —, os Estados cruzados foram gradualmente pressionados. A queda de Edessa, em 1144, motivou a Segunda Cruzada (1147-1149), pregada por Bernardo de Claraval e liderada pelos reis Luís VII da França e Conrado III do Sacro Império, que fracassou sem conquistas duradouras. A derrota decisiva dos cruzados viria na batalha de Hattin, em 1187, após a qual Saladino retomou Jerusalém quase noventa anos depois de sua conquista original, pondo fim à presença cristã na cidade. A resposta foi a Terceira Cruzada (1189-1192), que reuniu três dos maiores monarcas da Europa — Ricardo Coração de Leão da Inglaterra, Filipe Augusto da França e o imperador Frederico Barba-Ruiva, morto afogado a caminho da Terra Santa —, mas que, apesar de recuperar parte da costa, não conseguiu retomar Jerusalém, encerrando-se com um tratado de paz entre Ricardo e Saladino que garantia apenas acesso de peregrinos à cidade.
O episódio mais controverso de todo o movimento cruzadista ocorreu na Quarta Cruzada (1202-1204): desviada de seu destino original no Egito por pressões financeiras e políticas — sobretudo da República de Veneza, que financiara a frota — e pela disputa dinástica pelo trono bizantino, a expedição terminou por saquear Constantinopla, capital do próprio Império Bizantino cristão que as cruzadas originalmente se propunham a socorrer, em abril de 1204. O saque, com pilhagem de relíquias, obras de arte e tesouros da cidade e a instalação de um Império Latino do Oriente que duraria até 1261, é hoje reconhecido, inclusive pela Igreja Católica, como um dos episódios mais vergonhosos e um golpe irreparável nas relações entre cristãos latinos e ortodoxos — o papa João Paulo II chegou a pedir formalmente perdão pelo episódio em carta ao patriarca ecumênico Bartolomeu I, em 2001.
Ao todo, contam-se tradicionalmente oito grandes cruzadas numeradas ao longo de quase dois séculos, além de expedições menores, como a desastrosa Cruzada das Crianças (1212) e as cruzadas tardias do rei Luís IX da França ao Egito e à Tunísia, no século XIII, nas quais o próprio rei viria a morrer. A última fortaleza cruzada no Oriente, a cidade de Acre, caiu em 1291, encerrando definitivamente a presença latina na Terra Santa. A avaliação histórica do fenômeno das Cruzadas é hoje objeto de revisão crítica também dentro da própria Igreja Católica, que reconhece nelas motivações religiosas genuínas — o desejo sincero de muitos peregrinos-guerreiros de proteger os lugares santos e os cristãos orientais — ao lado de interesses políticos, econômicos e territoriais das potências europeias, e de episódios de violência, intolerância religiosa e massacres de civis judeus, muçulmanos e cristãos orientais que se afastam frontalmente do espírito do Evangelho.
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Como a Igreja avalia hoje as Cruzadas medievais?
Apologética
Os papas pediram publicamente perdão por episódios concretos das Cruzadas — como o saque de Constantinopla em 1204 — e o magistério atual reconhece nelas tanto motivações religiosas quanto graves abusos, sem tratá-las como um bloco moralmente uniforme.

São Luís IX da França
Santos
Rei da França no século XIII, conhecido pela justiça, pela caridade e pela participação em cruzadas.

Beato Urbano II
Papas
Papa do século XI que convocou, no Concílio de Clermont, a primeira Cruzada para socorrer os cristãos do Oriente.

São Bernardo de Claraval
Doutores da Igreja
Abade cisterciense do século XII, pregador da Segunda Cruzada e mestre da teologia mística; chamado Doutor Melífluo.
