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Heresias e Cismas

Quietismo

Doutrina espiritual do padre Miguel de Molinos que pregava a aniquilação total da vontade própria e o abandono passivo em Deus como via de perfeição cristã.

Tipo
Heresia
Século
XVII
Condenação
Constituição Apostólica «Coelestis Pastor», de Inocêncio XI (1687)

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Miguel de Molinos nasceu em 1628 em Muniesa, na região aragonesa de Teruel, e formou-se em teologia no colégio jesuíta de São Paulo, em Valência, antes de ser ordenado padre em 1652. Mudou-se para Roma em meados da década de 1660, onde rapidamente conquistou fama excepcional como confessor e diretor espiritual, atraindo penitentes entre a nobreza, o clero e até cardeais — entre eles Benedetto Odescalchi, que seria eleito papa em 1676 com o nome de Inocêncio XI e que, por anos, contou-se entre seus protetores.

Sua obra principal, o «Guia Espiritual», publicada em Roma em 1675 com aprovações eclesiásticas favoráveis, propunha um caminho de oração interior centrado no recolhimento, no silêncio e no abandono passivo total da alma em Deus — um estado de «quietude» em que as faculdades ativas de raciocinar, imaginar e mesmo querer deveriam ser suspensas, deixando Deus agir diretamente na alma sem esforço discursivo da parte do orante. O livro fez enorme sucesso: chegou a vinte edições em doze anos e foi traduzido para o latim, o francês, o inglês e o alemão, tornando-se um dos manuais de oração mais difundidos da Europa católica do século XVII.

As críticas, porém, cresceram rapidamente, sobretudo da parte dos jesuítas, rivais de Molinos na direção espiritual da elite romana, que viam em sua doutrina da quietude um risco de indiferença moral: se a alma unida passivamente a Deus não deve mais exercer resistência ativa da vontade, argumentavam os críticos, abrir-se-ia perigosa margem para justificar deslizes morais como algo alheio ao verdadeiro «eu» já entregue a Deus — acusação reforçada por rumores, levantados durante o processo, de condutas impróprias de Molinos com penitentes. A esses fatores somou-se um componente político: o rei Luís XIV da França, em atrito com o papa Inocêncio XI por outras razões de política eclesiástica, pressionou Roma contra um movimento espiritual que contava com apoio de cardeais próximos ao papa.

Preso pelo Santo Ofício em maio de 1685, Molinos foi julgado ao longo de dois anos; em 3 de setembro de 1687, diante de grande multidão na igreja dominicana de Santa Maria sopra Minerva, foi declarado hereje dogmático e obrigado a abjurar publicamente. Pouco depois, o papa Inocêncio XI promulgou a constituição apostólica «Coelestis Pastor» (1687), condenando como heréticas, suspeitas, erradas ou escandalosas sessenta e oito proposições extraídas de seus escritos e de seu processo. Molinos foi condenado à prisão perpétua e à penitência pública contínua, morrendo encarcerado em Roma em dezembro de 1696, sem jamais recuperar a liberdade.

Ecos atenuados da espiritualidade quietista reapareceram poucos anos depois na França, na obra da mística Madame Guyon, cuja doutrina do «puro amor» desinteressado de Deus atraiu o arcebispo François Fénelon, preceptor do neto de Luís XIV. A controvérsia resultante — batizada de «semiquietismo» — opôs Fénelon ao poderoso bispo Jacques-Bénigne Bossuet, já conhecido do leitor destas páginas por sua defesa do galicanismo: as conferências de Issy, em 1694, não produziram acordo satisfatório, e o livro de defesa de Fénelon, «Explicação das Máximas dos Santos» (1697), foi por fim condenado pelo papa Inocêncio XII no breve «Cum Alias» (1699), que reprovou vinte e três proposições sem, contudo, qualificá-las expressamente como heréticas; Fénelon submeteu-se de imediato à decisão.

O episódio do quietismo deixou como legado duradouro uma linha divisória mais nítida, na teologia espiritual católica, entre as formas legítimas de contemplação passiva e mística — praticadas e ensinadas, por exemplo, por Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz — e formulações que, ao radicalizarem a passividade da alma diante de Deus, correm o risco de esvaziar a responsabilidade moral e o papel ativo da vontade humana na vida cristã.

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Fontes

  • https://en.wikipedia.org/wiki/Miguel_de_Molinos
  • https://www.newadvent.org/cathen/10441a.htm
  • https://www.britannica.com/biography/Miguel-de-Molinos
  • https://www.universalis.fr/encyclopedie/quietisme/3-mme-guyon-et-fenelon/

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