Heresias e Cismas
Monotelismo
Heresia que atribuía a Cristo uma só vontade, a divina, numa tentativa de conciliação com os monofisistas que comprometia a integridade de sua natureza humana.
- Tipo
- Heresia
- Século
- VII
- Condenação
- Terceiro Concílio de Constantinopla (680-681)
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No início do século VII, o imperador bizantino Heráclio, às voltas com a necessidade de recompor a unidade religiosa de um império fragilizado por guerras contra os persas e, logo depois, pela expansão árabe-muçulmana, patrocinou um esforço político-teológico para reconciliar os monofisistas orientais — maioria em regiões estratégicas como o Egito e a Síria — com a fé de Calcedônia. O patriarca Sérgio I de Constantinopla formulou, para esse fim, uma fórmula de compromisso: embora Cristo possuísse de fato duas naturezas, divina e humana, como definira Calcedônia, nele haveria uma só energia ou operação (monoenergismo) e, num refinamento posterior da mesma ideia, uma só vontade (do grego "monos", único, e "thelema", vontade) — o monotelismo propriamente dito —, resultante da identificação perfeita entre a vontade humana e a vontade divina de Cristo. Em 634, Sérgio obteve inclusive a adesão formal de um sínodo reunido em Chipre à sua fórmula.
Buscando também apoio do Ocidente, Sérgio escreveu ao papa Honório I, que respondeu em termos ambíguos falando de "uma só vontade" em Cristo — carta que seria décadas depois usada como prova de que um papa chegara a subscrever, ainda que talvez sem plena consciência das implicações técnicas, uma fórmula que se revelaria herética; historiadores discutem até hoje se Honório pretendia de fato endossar o monotelismo ou apenas evitar controvérsias verbais, mas o episódio se tornaria caso de estudo obrigatório nos debates posteriores sobre os limites da infalibilidade papal. O principal opositor teológico do monotelismo foi o monge Máximo, o Confessor, que argumentou com grande rigor que negar a Cristo uma vontade humana distinta, ainda que perfeitamente submissa à vontade divina, equivalia a negar-lhe uma humanidade integral e livre — por sua resistência, Máximo foi preso, teve a língua e a mão direita mutiladas por ordem imperial e morreu em 662, no exílio, pouco depois desses suplícios.
O Terceiro Concílio de Constantinopla, sexto concílio ecumênico, reunido entre 680 e 681, rejeitou formalmente o monotelismo e o monoenergismo como heresias, definindo que Cristo possui duas vontades e duas operações naturais e distintas, correspondentes às suas duas naturezas, unidas sem divisão nem conflito, com a vontade humana livre e ativamente submetida à vontade divina, sem ser por ela absorvida, anulada ou diminuída em sua integridade. O concílio condenou nominalmente os principais defensores e promotores da doutrina, entre eles os patriarcas Sérgio, Pirro e Paulo de Constantinopla — e também, de modo notável e sem precedentes na história conciliar, o já falecido papa Honório I, cuja condenação por um concílio ecumênico seria posteriormente confirmada por sucessivos papas ao longo da Idade Média, tornando-se um dos episódios mais discutidos por teólogos e historiadores da Igreja ao tratar dos limites do magistério papal.
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Papa Honório I
Papas
Papa cujas cartas sobre a vontade de Cristo foram condenadas postumamente pelo Concílio de Constantinopla III — caso central no debate sobre o magistério papal.

Concílio de Constantinopla III
Concílios
Sexto concílio ecumênico (680-681): condenou o monotelismo e definiu que Cristo possui duas vontades e duas operações, divina e humana.

Constantinopla III e a condenação do monotelismo
Concílios
Sexto concílio ecumênico (680-681): definiu que Cristo possui duas vontades e duas operações naturais, divina e humana, condenando o monoenergismo e o monotelismo e, nominalmente, o papa Honório I por tê-los tolerado.

Como a Igreja pode dizer que o Papa é infalível se vários papas levaram vidas moralmente escandalosas?
Apologética
Infalibilidade e impecabilidade são conceitos distintos: o dogma definido no Vaticano I (1870) garante imunidade ao erro apenas em definições solenes ex cathedra de fé e moral, não a ausência de pecado pessoal nem a correção de todo ensinamento papal.
