Heresias e Cismas
Iconoclastia
Movimento que rejeitava a veneração de imagens sagradas como idolatria, chegando a promover a destruição sistemática de ícones no Império Bizantino.
- Tipo
- Heresia
- Século
- VIII-IX
- Condenação
- Segundo Concílio de Niceia (787); reafirmado no "Triunfo da Ortodoxia" (843)
Tamanho do texto
A crise iconoclasta nasceu no Império Bizantino sob o imperador Leão III, o Isáurio (r. 717-741), fundador de uma nova dinastia que subira ao trono pouco depois de repelir um cerco árabe a Constantinopla. Convencido de que a veneração de ícones havia degenerado em idolatria — e talvez influenciado pela crítica muçulmana e judaica às imagens religiosas, além de interpretar derrotas militares e uma erupção vulcânica no mar Egeu como sinais do desagrado divino —, Leão III promoveu, a partir de cerca de 726-730, a remoção de imagens sagradas de espaços públicos, começando pelo célebre ícone de Cristo sobre a Porta de Bronze do palácio imperial. O patriarca Germano I de Constantinopla, que se recusou a subscrever a nova política, foi forçado a renunciar em 730.
A defesa teológica mais influente da veneração das imagens veio, paradoxalmente, de fora do alcance direto do poder imperial: o monge João Damasceno, que vivia sob domínio muçulmano no mosteiro de Mar Sabas, perto de Jerusalém, escreveu três «Discursos Apologéticos contra os que Rejeitam as Santas Imagens», nos quais distinguia com precisão entre a «latria» (adoração), devida somente a Deus, e a «proskynesis» ou veneração relativa, prestada à imagem em razão daquele que ela representa — argumentando ainda que, tendo o próprio Deus se feito visível na Encarnação de Cristo, tornara-se legítimo representar visualmente o Filho encarnado e, por extensão, os santos que o refletem.
Sob Constantino V (r. 741-775), filho de Leão III, a política iconoclasta radicalizou-se e ganhou justificação conciliar: em 754, um concílio reunido em Hieria, com a participação de 338 bispos mas sem nenhum dos cinco patriarcados — nem sequer o de Constantinopla, então vacante —, declarou a veneração de imagens uma forma de idolatria e anatematizou nominalmente seus principais defensores, incluindo João Damasceno. Seguiram-se décadas de perseguição sistemática: ícones e mosaicos foram destruídos ou cobertos de cal em igrejas por todo o império, e muitos monges — tradicionalmente os mais fervorosos defensores das imagens — foram presos, torturados, exilados ou mortos, enquanto mosteiros inteiros eram fechados ou convertidos a usos civis.
A reviravolta veio com a morte de Constantino VI ainda menor e a regência de sua mãe, a imperatriz Irene, que convocou em 787 o Segundo Concílio de Niceia — reconhecido como o sétimo concílio ecumênico —, reunindo cerca de 350 bispos. O concílio condenou a iconoclastia, restabeleceu solenemente a veneração das imagens e fixou a distinção, já esboçada por João Damasceno, entre a honra relativa devida aos ícones e a adoração reservada só a Deus. No Ocidente, porém, uma tradução latina deficiente das atas do concílio levou Carlos Magno e seus teólogos a acreditar, equivocadamente, que Niceia II exigia adoração das imagens; a reação a esse mal-entendido resultou nos «Libri Carolini» e voltou a ser discutida, de passagem, no Concílio de Frankfurt de 794 (ver o verbete sobre o adopcionismo).
A controvérsia não estava, porém, encerrada: sob Leão V, o Armênio, a partir de 815, um novo concílio reunido em Santa Sofia reafirmou o iconoclasmo, inaugurando uma segunda fase de perseguição que atingiu duramente figuras como o abade Teodoro Estudita, expoente da resistência monástica. Somente com a morte do imperador Teófilo, em 842, e a regência de sua viúva, a imperatriz Teodora, em nome do filho menor Miguel III, a questão foi resolvida em definitivo: em 843, um sínodo convocado com o novo patriarca Metódio restabeleceu de modo irrevogável a veneração das imagens, num episódio celebrado liturgicamente todos os anos, no primeiro domingo da Quaresma, como o «Triunfo da Ortodoxia» — festa que as Igrejas ortodoxas orientais mantêm até hoje.
Continue sua leitura

Concílio de Constantinopla IV
Concílios
Oitavo concílio ecumênico para Roma (869-870): depôs Fócio, restaurou Inácio, promulgou 27 cânones e definiu a veneração das imagens; sua legitimidade é contestada pelo Oriente, que reconhece em seu lugar o sínodo de 879-880.

João Damasceno
Padres da Igreja
Monge de Jerusalém do século VIII, último grande representante da patrística grega e defensor da veneração dos ícones.

Concílio de Niceia II
Concílios
Sétimo concílio ecumênico (787): condenou o iconoclasmo e definiu a legitimidade da veneração das imagens sagradas, distinta da adoração devida só a Deus.
Niceia II e a veneração das imagens sagradas
Concílios
O Segundo Concílio de Niceia (787) encerrou a primeira fase da controvérsia iconoclasta bizantina, definindo que as imagens sagradas podem ser veneradas, mas não adoradas como só a Deus é devido.
