Ir para o conteúdo
Compêndio CatólicoCatálogo de consulta · fé, doutrina e vida católica
Acender uma vela

Heresias e Cismas

Donatismo

Cisma e heresia do norte da África que negava a validade dos sacramentos administrados por clérigos considerados "traditores" durante as perseguições romanas.

Tipo
Heresia
Século
IV-V
Condenação
Concílio de Arles (314) e Conferência de Cartago (411)

Tamanho do texto

Surgido em Cartago logo após a morte do bispo Mensúrio em 311, o donatismo — que deve seu nome mais duradouro ao bispo Donato de Casae Nigrae, embora o primeiro líder do movimento tenha sido Majorino — nasceu de uma disputa concreta em torno da sucessão episcopal: parte do clero africano recusava reconhecer como válida a eleição do novo bispo Ceciliano, acusando-o e ao bispo consagrante, Félix de Aptunga, de terem sido "traditores" durante a Grande Perseguição movida pelo imperador Diocleciano (303-305) — isto é, de terem entregado às autoridades romanas cópias das Escrituras Sagradas para serem publicamente queimadas, numa época em que muitos cristãos preferiam o martírio a esse gesto de apostasia. Liderada por uma influente matrona chamada Lucila, a facção dissidente elegeu um bispo rival e, com o tempo, formou uma Igreja paralela que chegou a ser majoritária em boa parte do norte da África romana.

Dessa acusação concreta, os donatistas extraíram uma doutrina sacramental mais ampla e rigorista: um sacerdote ou bispo em pecado grave — ou ordenado por alguém em pecado grave — não poderia administrar validamente os sacramentos, que ficariam "contaminados" pela indignidade moral do ministro; daí a prática donatista de rebatizar quem havia recebido sacramentos de mãos católicas. Nas franjas mais radicais do movimento agiam os circumcelliões, bandos itinerantes de camponeses armados que percorriam o campo africano pregando com violência contra proprietários e clero católico, cultuando o martírio voluntário como ideal supremo e chegando a defender, em termos quase revolucionários para a época, o perdão de dívidas e a libertação de escravos.

O principal opositor teológico do donatismo foi Agostinho, bispo de Hipona a partir de 396, que dedicou boa parte de sua produção pastoral e polêmica — sermões, cartas e tratados como o "De Baptismo" — a refutá-lo, desenvolvendo em resposta o princípio duradouro de que é Cristo, e não o ministro humano, o verdadeiro autor da eficácia dos sacramentos ("ex opere operato", diriam os escolásticos mais tarde): a santidade pessoal do padre ou bispo não condiciona, portanto, a validade daquilo que ele celebra em nome da Igreja. Agostinho defendeu ainda, num primeiro momento com relutância e depois com maior aceitação, o uso da coerção civil moderada contra a violência donatista, posição que teria peso considerável na teologia política cristã posterior.

O movimento foi condenado já pelo Concílio de Arles, em 314, convocado pelo imperador Constantino a pedido dos próprios católicos africanos, mas persistiu com força — chegando a rivalizar em número de fiéis com a Igreja católica local — até ser formalmente suprimido depois da Conferência de Cartago de 411, grande assembleia convocada sob pressão do Império e com participação decisiva de Agostinho, que reuniu simultaneamente centenas de bispos católicos e donatistas para debater publicamente a questão diante de um juiz imperial, resultando em decisão desfavorável aos donatistas e em medidas subsequentes de repressão civil. Enfraquecido, mas não totalmente extinto, o donatismo sobreviveria em bolsões isolados do norte da África até ser praticamente apagado pela conquista árabe-muçulmana da região no século VII.

Continue sua leitura

← Todas as entradas de Heresias e Cismas