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Heresias e Cismas

Adopcionismo

Heresia hispânica do século VIII segundo a qual Cristo seria Filho de Deus por natureza apenas em sua divindade, sendo "adotado" como filho em sua humanidade.

Tipo
Heresia
Século
VIII
Condenação
Concílio de Frankfurt (794)

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Depois da conquista muçulmana da Península Ibérica em 711, a antiga Igreja hispano-visigótica sobreviveu como minoria cristã tolerada — a comunidade moçárabe — sob o domínio dos emires de Córdoba. Foi nesse ambiente que Elipando, arcebispo de Toledo desde meados do século VIII e a mais alta autoridade eclesiástica da Hispânia islâmica, formulou — ou, segundo outra leitura historiográfica, apenas retomou e sistematizou uma velha fórmula cristológica hispânica de sabor isidoriano — a doutrina que ficaria conhecida como adopcionismo: Cristo seria Filho de Deus «por natureza» somente enquanto Verbo eterno e consubstancial ao Pai, mas «por adoção», filho «adotivo» ou «nomeativo», enquanto homem, na sua humanidade concreta nascida de Maria. A controvérsia ganhou corpo a partir de meados da década de 780, quando Elipando já vinha de uma disputa anterior, sobre a Trindade, com um monge sevilhano chamado Migécio; a fórmula adotiva pareceu-lhe então um modo de reafirmar com clareza a plena humanidade de Cristo contra os erros de Migécio, sem perceber — segundo os adversários — que dividia perigosamente a única pessoa do Filho em dois «filhos», um por natureza e outro por adoção.

Félix, bispo de Urgel, na fronteira entre a Marca Hispânica carolíngia e os territórios muçulmanos, aderiu e deu sofisticação teológica à mesma doutrina, tornando-se, aos olhos dos adversários francos, o principal responsável intelectual pela heresia — a ponto de ela ser também chamada «heresia feliciana». A tese encontrou oposição imediata na Hispânia cristã livre: o monge Beato de Liébana, do mosteiro asturiano de San Martín de Turieno (atual Santo Toribio de Liébana), já célebre por seu monumental «Comentário ao Apocalipse» — obra que se tornaria modelo dos famosos códices iluminados conhecidos como «beatos» —, e o bispo Etério de Osma escreveram por volta de 785 um tratado conjunto contra Elipando, acusando-o em termos duríssimos de loucura, ignorância e até de ser «testículo do Anticristo». Informado da disputa, o papa Adriano I enviou nesse mesmo ano uma carta condenando a doutrina adotiva como reedição, sob nova roupagem, do antigo nestorianismo.

O centro do combate deslocou-se, porém, para a corte de Carlos Magno, a quem Félix de Urgel estava sujeito como súdito franco. Convocado a explicar-se no Concílio de Regensburgo, em 792, Félix abjurou a doutrina diante de legados papais — mas, de volta à sua diocese, retratou a própria retratação e voltou a professar o adopcionismo, alegando tê-la feito sob coação. Alcuíno de York, o mais influente conselheiro teológico de Carlos Magno, dedicou-se então a refutar sistematicamente a heresia em obras sucessivas — um «Libellus adversus Felicis haeresim» e depois os «Sete Livros contra Félix de Urgel» — e trocou cartas de tom mais conciliador, mas igualmente firme, com o próprio Elipando.

O caso foi julgado no Concílio de Frankfurt, convocado por Carlos Magno em 794 e reunido com a participação de legados do papa Adriano I e de bispos de toda a Francia, Itália e Inglaterra. A assembleia condenou solenemente o adopcionismo, reafirmando que Cristo é Filho único de Deus, verdadeiro por natureza tanto em sua divindade quanto em sua humanidade, sem qualquer sentido adotivo. Félix, pressionado uma vez mais, compareceu a Aquisgrão, ouviu a refutação de vários bispos e abjurou de novo; foi então mantido sob custódia vigiada em Lyon, onde o arcebispo Leidrado e, depois dele, Agobardo de Lyon continuaram a acompanhá-lo de perto, e onde terminou seus dias sem que se saiba ao certo se manteve até o fim uma retratação sincera.

Elipando, protegido pela distância e pela relativa autonomia da Igreja moçárabe sob domínio islâmico, onde a autoridade de Carlos Magno não alcançava, jamais se retratou e morreu ainda arcebispo de Toledo, por volta do início do século IX, sustentando até o fim a fórmula adotiva. O adopcionismo hispânico, entendido por alguns historiadores também como uma tentativa — ainda que involuntária — de tornar a cristologia cristã mais palatável ao monoteísmo estrito do islã então dominante na Península, não sobreviveu como movimento organizado depois da morte de seus dois principais defensores, mas permaneceu por séculos como referência obrigatória nos manuais de heresiologia, ao lado do nestorianismo, do qual era visto como uma reencarnação medieval.

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