Devoções
Devoção das Quarenta Horas
Exposição solene e contínua do Santíssimo Sacramento por quarenta horas, em memória do tempo que o corpo de Cristo permaneceu no sepulcro.
- Origem
- Milão, 1527, por iniciativa do padre Gian Antonio Bellotti
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A devoção das Quarenta Horas (em italiano Quarant'Ore) consiste na exposição solene e contínua do Santíssimo Sacramento à adoração dos fiéis por quarenta horas seguidas, número que evoca tradicionalmente o tempo que o corpo de Cristo permaneceu no sepulcro entre a morte na Cruz e a Ressurreição. No seu uso clássico, ela é mantida em sucessão de igrejas, de modo que a exposição termine numa igreja à mesma hora em que começa na seguinte. Abre-se com uma Missa solene de Exposição e encerra-se com a Missa de Deposição, ambas acompanhadas de procissão com o Santíssimo e do canto das ladainhas dos santos.
As origens da prática remontam a Milão, em 1527, por iniciativa do padre Antonio Bellotto, ligado à igreja do Santo Sepulcro, que organizou a exposição prolongada em conexão com uma confraria local. Já existia, antes disso, o costume de expor o Santíssimo por quarenta horas em quatro grandes festas do ano (Natal, Páscoa, Ascensão e Pentecostes), mas de modo restrito e sem grande organização pública. Em 1537, o papa Paulo III aprovou a forma milanesa da devoção. A questão de quem primeiro organizou o sistema de exposição rotativa «de igreja em igreja» — mantendo-se ininterrupta ao longo de todo o ano em Milão — foi objeto de debate entre historiadores; a evidência parece favorecer o capuchinho José Piantanida da Fermo (a quem o texto atual, com grafia livre, chama «Giuseppe da Ferno»), que teria dado a essa transferência a sua forma estável. Santo Antônio Maria Zacarias, fundador dos Clérigos Regulares de São Paulo (os Barnabitas), incorporou a prática à espiritualidade de sua congregação, e São Carlos Borromeo deu-lhe, em Milão, uma forma disciplinada, com documentos próprios para as Quarant'Ore e para a «Oratio sine intermissione» (oração ininterrupta).
A prática chegou a Roma por volta de 1550, levada por um jovem padre florentino recém-chegado à cidade, Filipe Néri — que décadas depois fundaria o Oratório e se tornaria uma das figuras centrais da renovação espiritual romana da Contrarreforma. As motivações originais da devoção eram sobretudo a oração pela unidade dos cristãos, então ameaçada pela Reforma Protestante, e pela paz entre as nações católicas da Europa, às quais se acrescentou depois um acento crescente de reparação pelos pecados e ofensas contra o Santíssimo Sacramento.
Um passo decisivo para sua universalização veio com a constituição «Graves et diuturnae», de 25 de novembro de 1592, do papa Clemente VIII (documento também referido como Instructio Clementina). Diante das ameaças à paz da cristandade e da situação convulsionada da França, o pontífice determinou estabelecer publicamente «nesta cidade mãe de Roma» um curso ininterrupto de oração, distribuindo as igrejas e os horários de tal modo que, a cada hora do dia e da noite, ao longo de todo o ano, o incenso da oração subisse sem interrupção diante do Senhor. O documento pede expressamente orações pela concórdia dos príncipes cristãos, pela França e pela derrota dos turcos otomanos, que então ameaçavam devastar a cristandade — o mesmo contexto geopolítico do papado de Clemente VIII, que trabalhou pela reconciliação de Henrique IV e pela formação de uma aliança cristã contra o Império Otomano.
Em 1628, a Congregação dos Ritos determinou que nenhuma exposição desse tipo, mesmo em igrejas de ordens religiosas, poderia ocorrer sem autorização prévia do bispo local — norma que preserva o caráter solene e supervisionado dessa forma de adoração eucarística prolongada. Em 1705, Clemente XI publicou nova instrução sobre as Quarenta Horas, consagrando o uso romano. A devoção permanece hoje praticada em muitas dioceses, sobretudo como preparação para a Quaresma ou como parte de festas eucarísticas locais, e está na raiz histórica de formas correlatas, como a Adoração Nocturna.
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