Ir para o conteúdo
Compêndio CatólicoCatálogo de consulta · fé, doutrina e vida católica
Acender uma vela

Devoções

Devoção ao Imaculado Coração de Maria

Devoção mariana que honra o coração de Maria como símbolo de seu amor materno e de sua total entrega a Deus, sistematizada por São João Eudes no século XVII e difundida mundialmente após as aparições de Fátima em 1917.

Devoção ao Imaculado Coração de Maria
Foto: Francisco SC — Wikimedia Commons, CC BY 3.0
Origem
Antiga na tradição mariana, consolidada devocionalmente após as aparições de Fátima (1917)

Tamanho do texto

Paralela e complementar à devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a devoção ao Imaculado Coração de Maria honra o coração da Virgem como símbolo de seu amor materno, de sua fé e de sua total entrega à vontade de Deus. Sua raiz escriturística está no Evangelho de Lucas, que por duas vezes registra que Maria «guardava todas essas coisas, meditando-as em seu coração» (Lc 2,19.51); os Padres da Igreja e os teólogos medievais, entre eles São Bernardo, Santa Gertrudes e Santa Brígida, desenvolveram essa leitura. Como devoção organamente estruturada, porém, ela deve muito ao sacerdote francês São João Eudes: em 1648 ele obteve do bispo de Autun, na França, a aprovação da celebração de uma festa em honra do Coração de Maria, sendo o primeiro a promover oficialmente, em unidade, o culto aos dois Corações — de tal modo que Leão XIII o chamou de «autor do culto litúrgico aos Sagrados Corações de Jesus e Maria», e São Pio X, ao beatificá-lo, o saudou como «pai, doutor e apóstolo» dessa devoção.

Foi, no entanto, o relato das aparições de Fátima, em 1917, que deu à devoção alcance mundial. Segundo os testemunhos dos três pastorinhos — Lúcia dos Santos, então com dez anos, Francisco Marto, com nove, e Jacinta Marto, com sete —, na aparição de 13 de julho de 1917, na Cova da Iria, Nossa Senhora anunciou: «Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração», e acrescentou a promessa de que, «para impedir a guerra, virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos primeiros sábados». A vidente Lúcia, mais tarde carmelita descalça, relatou ainda ter visto o Coração de Maria cercado de espinhos, ofendido pelos pecados dos homens e a necessitar de reparação. Esse pedido de reparação foi detalhado anos depois, na aparição de 10 de dezembro de 1925, em Pontevedra, na Espanha, quando a Virgem e o Menino Jesus apareceram à jovem postulante Lúcia e pediram a comunhão reparadora nos primeiros sábados de cinco meses consecutivos — a chamada devoção dos Cinco Primeiros Sábados, com a promessa de assistência na hora da morte a quem a praticasse.

A resposta institucional a esse apelo veio em etapas. Em 31 de outubro de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, o papa Pio XII consagrou toda a humanidade ao Imaculado Coração de Maria, primeiro por radiomensagem dirigida a Portugal e repetindo solenemente o ato na Basílica de São Pedro em 8 de dezembro do mesmo ano; nos anos seguintes, historiadores católicos relacionaram o gesto à virada favorável aos Aliados, com as vitórias de El Alamein (novembro de 1942) e Stalingrado (fevereiro de 1943). Em 7 de julho de 1952, pela carta apostólica «Sacro Vergente Anno», Pio XII consagrou especificamente os povos da Rússia, então sob regime comunista ateu. Paulo VI renovou o gesto em 1964, ao encerrar a terceira sessão do Concílio Vaticano II, e publicou em 1967 a exortação apostólica «Signum Magnum», na qual pediu que o Coração Imaculado de Maria brilhasse «ante o olhar de todos os cristãos como modelo de perfeito amor para com Deus e para com o próximo». João Paulo II, profundamente marcado pela espiritualidade de Fátima após sobreviver ao atentado de 13 de maio de 1981 — aniversário da primeira aparição —, voltaria a consagrar o mundo e a Rússia ao Imaculado Coração em 1981, 1982 e, de forma considerada mais plena pelos fiéis fatimistas, em 25 de março de 1984.

Mais recentemente, em 25 de março de 2022, o papa Francisco presidiu, na Basílica de São Pedro, uma nova consagração, durante uma celebração penitencial, nomeando explicitamente, pela primeira vez num ato desse tipo, tanto a Rússia quanto a Ucrânia, no contexto da invasão russa iniciada naquele ano. O mesmo ato foi realizado simultaneamente pelo prefeito do Dicastério para a Evangelização em Fátima, unindo o gesto tradicional fatimista a uma súplica direta pela paz entre os dois países em guerra.

A festa litúrgica própria do Imaculado Coração de Maria foi instituída para toda a Igreja pelo decreto «Cultus liturgicus», de 4 de maio de 1944, da Congregação dos Ritos, fixada inicialmente em 22 de agosto, oitava da Assunção, com Missa e ofício próprios. Na reforma litúrgica pós-conciliar, a celebração foi transferida para o sábado seguinte à solenidade do Sagrado Coração de Jesus, tornando-se memória (primeiro facultativa, depois obrigatória) e reafirmando, no próprio calendário, o vínculo entre os dois Corações unidos na mesma missão de salvação; a antiga data de 22 de agosto passou a ser a memória de Nossa Senhora Rainha.

Temas relacionados

Cada tema abre a busca por ele em todas as categorias do acervo.

Fontes

  • Lucas 2,19.51
  • Memórias da Irmã Lúcia I, Santuário de Fátima (edição das fontes originais)
  • Pio XII, radiomensagem de consagração do mundo ao Imaculado Coração (31 de outubro de 1942; repetida em 8 de dezembro de 1942), EWTN
  • Pio XII, Carta Apostólica «Sacro Vergente Anno» (1952)
  • Congregação dos Ritos, decreto «Cultus liturgicus», 4 de maio de 1944
  • Paulo VI, Exortação Apostólica «Signum Magnum» (1967), n. 14
  • Osservatore Romano, «O Papa consagrará a Rússia e a Ucrânia ao Coração Imaculado de Maria» (2022)

Continue sua leitura

← Todas as entradas de Devoções