Devoções
A prática do Angelus (três vezes ao dia)
O hábito de interromper as atividades três vezes ao dia — manhã, meio-dia e tarde — para rezar o Angelus ao toque do sino, recordando a Encarnação; no Tempo Pascal é substituído pela antífona Regina Caeli.

- Origem
- Uso devocional consolidado por volta do século XVI
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Além do texto da oração em si (ver Orações), o Angelus é também uma prática devocional de ritmo diário: tradicionalmente marcada pelo toque de sinos da igreja paroquial três vezes ao dia — pela manhã, ao meio-dia e ao entardecer —, convida os fiéis a interromper por um instante as ocupações cotidianas para relembrar o mistério da Encarnação. O nome deriva da primeira palavra do texto latino, «Angelus Domini nuntiavit Mariae» («O Anjo do Senhor anunciou a Maria»), e a oração era chamada antigamente de «oração da paz», por celebrar o Filho de Deus que, encarnando-se no seio da Virgem, estabeleceu a paz entre Deus e os homens.
As raízes do costume são medievais e se desenvolveram em camadas. A primeira notícia segura remonta a 1269, quando São Boaventura de Bagnoregio, então ministro geral da Ordem Franciscana, no Capítulo Geral dos Frades Menores reunido em Pisa, prescreveu aos religiosos saudar a Mãe de Deus ao entardecer, ao som dos sinos, com a recitação da Ave-Maria, recordando a Encarnação. O hábito espalhou-se por etapas jurídicas posteriores: um decreto do Sínodo de Strigônia (Esztergom, Hungria), em 1307, concedeu indulgência aos fiéis que recitassem três Ave-Marias ao toque dos sinos vespertinos; e um sínodo reunido em Colônia, no início do século XV, determinou que em todas as igrejas se tocasse o sino três vezes ao nascer do sol, à maneira do entardecer. A composição do texto do Angelus é, pela tradição, atribuída ao beato papa Urbano II (pontífice de 1088 a 1099) — atribuição piedosa que as fontes apresentam como tal, sem documentação contemporânea.
A consolidação do Angelus como oração tríplice veio em etapas distintas. Em 29 de junho de 1456, o papa Calisto III, por meio da bula conhecida como «Bulla Turcorum», ordenou que os sinos de todas as igrejas da cristandade tocassem ao meio-dia, convocando os fiéis a rezar pela defesa dos que resistiam ao avanço otomano. O contexto concreto foi o cerco de Belgrado: em 22 de julho daquele ano, João Hunyadi, auxiliado pela pregação do franciscano São João de Capistrano, derrotou o exército de Mehmed II, vitória que deteve por cerca de setenta anos o avanço otomano sobre a Europa Central. É preciso notar, como fazem as fontes históricas, que o «sino do meio-dia» ordenado por Calisto III não era originalmente idêntico ao Angelus — tratava-se de um toque de súplica pela vitória cristã —, e a fusão dos dois costumes só se consolidou mais tarde. Foi o rei Luís XI da França quem, em torno de 1472, determinou de modo sistemático que o sino tocasse três vezes ao dia — pela manhã, ao meio-dia e ao entardecer —, fixando a estrutura que se tornaria universal nos séculos seguintes, com a recitação das três Ave-Marias em cada toque.
Já na Idade Moderna, a devoção foi objeto de concessões espirituais: o papa Bento XIII, em 14 de setembro de 1724, anexou ao Angelus a indulgência de cem dias por cada recitação, com uma indulgência plenária uma vez por mês, para quem o rezasse em condições habituais. A estrutura tradicional da oração alterna três versículos e respostas, cada um seguido de uma Ave-Maria, relembrando o anúncio do anjo Gabriel a Maria, sua resposta de fé («Faça-se em mim segundo a tua palavra») e a Encarnação do Verbo («E o Verbo se fez carne e habitou entre nós»), encerrando-se com uma oração coletiva e o Glória. O toque de sinos que a acompanha costuma seguir três grupos de três badaladas, seguidos de nove badaladas contínuas. Durante todo o Tempo Pascal — da Páscoa a Pentecostes — a Igreja substitui o Angelus pela antífona mariana «Regina Caeli» («Rainha do Céu»), atestada em manuscritos litúrgicos desde o século XII e uma das quatro antífonas marianas do Ofício; ela celebra a Ressurreição em vez da Encarnação, sendo a única das antífonas marianas que é convite à alegria e não súplica.
A dimensão pública e semanal da devoção é relativamente recente. A primeira transmissão radiofônica do Angelus ocorreu em 15 de agosto de 1954, festa da Assunção, quando o papa Pio XII conduziu a oração de Castel Gandolfo; no outono daquele mesmo ano, Pio XII iniciou a tradição de rezar o Angelus da janela do seu estúdio no Palácio Apostólico, voltada para a Praça de São Pedro. Desde então, os papas recitam o Angelus (ou, no Tempo Pascal, o Regina Caeli) publicamente aos domingos e dias santos ao meio-dia, dirigindo aos fiéis uma breve reflexão antes da oração. Essa prática ligou-se de modo particular à memória mariana da Igreja: em 13 de maio de 1981, durante a audiência semanal na Praça de São Pedro — no dia de Nossa Senhora de Fátima —, João Paulo II foi atingido por disparos de Mehmet Ali Ağca e sobreviveu; anos depois atribuiu a proteção à Virgem e depositou na coroa da imagem de Fátima a bala que o feriu. A combinação de sino e oração, ainda viva em muitas paróquias e comunidades rurais, permanece um dos gestos mais reconhecíveis da piedade católica cotidiana.
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Angelus (Ângelus)
Orações
Oração tradicional em três versículos e Ave-Marias, rezada ao amanhecer, ao meio-dia e ao entardecer, em memória da Encarnação.

Regina Coeli (Rainha do Céu)
Orações
Antífona mariana pascal que substitui o Angelus no Tempo Pascal, celebrando a Ressurreição de Cristo.

Completas (Oração antes de Dormir)
Liturgia das Horas
A última oração do dia, breve e recolhida, que confia o sono e a própria vida à proteção de Deus.

Salve Regina
Música Sacra
A mais conhecida das quatro antífonas marianas do Ofício Divino, cantada ao final de Completas e como oração final do Rosário.
