Catecismo · Parte 26
Terceira parte: A dignidade da pessoa humana e a vocação à bem-aventurança
A abertura da moral católica no Catecismo: o homem criado à imagem de Deus e chamado, pelas Bem-Aventuranças, à felicidade que só Deus pode dar.

- Parte
- 26
- Parágrafos
- CIC 1701-1729
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Esta entrada corresponde ao Capítulo Primeiro da Terceira Parte do Catecismo. Convém precisar os limites: a Terceira Parte como um todo intitula-se «A vida em Cristo» (nn. 1691-2557) e abre com a Secção «A vocação do homem: a vida no Espírito» (n. 1699). Dentro dela, o Capítulo Primeiro é «A dignidade da pessoa humana» (nn. 1700-1876), cujos dois primeiros artigos — «O homem, imagem de Deus» (n. 1700) e «A nossa vocação à bem-aventurança» (n. 1716) — são o objeto desta exposição; é nessa base antropológica que assenta toda a moral que se segue.
A Terceira Parte retoma o que a fé confessou na Primeira. O n. 1691 abre-a com uma citação de São Leão Magno: «Reconhece, ó cristão, a tua dignidade. Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às antigas misérias da tua vida passada.» O n. 1692 explica a passagem: o que o Símbolo da fé professa, os sacramentos comunicam-no; pelos sacramentos os cristãos se tornaram «filhos de Deus» (1 Jo 3,1) e «participantes da natureza divina» (2 Pe 1,4), e por isso são chamados a levar uma vida digna do Evangelho. A moral cristã é, assim, apresentada como consequência da dignidade recebida, não como código exterior.
O n. 1700 sintetiza o programa do Capítulo: «A dignidade da pessoa humana radica na sua criação à imagem e semelhança de Deus (Artigo 1) e realiza-se na sua vocação à bem-aventurança divina (Artigo 2).» No Artigo 1, o Catecismo afirma que foi em Cristo, «imagem do Deus invisível» (Cl 1,15), que o homem foi criado à imagem do Criador, e que foi também em Cristo Redentor que essa imagem, «deformada no homem pelo primeiro pecado, foi restaurada na sua beleza original e enobrecida pela graça». A pessoa humana é definida como «a única criatura sobre a terra querida por Deus por si mesma», dotada de «uma alma espiritual e imortal» (n. 1703), desde a conceção destinada à bem-aventurança eterna. Pela razão é capaz de compreender a ordem estabelecida pelo Criador; pela vontade, de se orientar para o bem verdadeiro — e nessa liberdade, «sinal privilegiado da imagem divina», encontra-se a sua dignidade e, ao mesmo tempo, a sua responsabilidade diante do pecado, que feriu a natureza humana (n. 1714).
O Artigo 2 (n. 1716) trata da vocação à bem-aventurança. As Bem-Aventuranças, diz o texto, «estão no coração da pregação de Jesus»; retomam as promessas feitas ao povo eleito desde Abraão e completam-nas, mas ordenando-as não já à posse de uma terra, e sim ao Reino dos céus. O n. 1717 afirma que elas «retratam o rosto de Jesus Cristo e descrevem a sua caridade», exprimem a vocação dos fiéis «associados à glória da sua paixão e ressurreição» e são «promessas paradoxais que sustentam a esperança no meio das tribulações», já inauguradas na vida da Virgem Maria e de todos os santos.
Vem depois o desejo de felicidade. O n. 1718 afirma que as Bem-Aventuranças «respondem ao desejo natural de felicidade», desejo de origem divina que Deus colocou no coração do homem «para o atrair a Si, o único que o pode satisfazer». Aqui o Catecismo apoia-se explicitamente em Santo Agostinho, citando as *Confissões*: «Como é então, Senhor, que eu Te procuro? De facto, quando Te procuro, ó meu Deus, é a vida feliz que eu procuro», concluindo com o resumo «Só Deus sacia». O n. 1723 enuncia, então, a doutrina das falsas felicidades: a verdadeira felicidade «não reside nem na riqueza ou no bem-estar, nem na glória humana ou no poder, nem em qualquer obra humana... nem em qualquer criatura, mas só em Deus». O texto recorre ainda a uma citação sobre os ídolos modernos, em que «a riqueza é a grande divindade deste tempo» e a notoriedade se tornou «um bem em si mesma, um bem soberano, objeto de verdadeira veneração».
Os nn. 1724-1727 fecham o artigo mostrando os caminhos concretos para o Reino — «o Decálogo, o Sermão da Montanha e a catequese apostólica» — e resumindo o fim último ao qual Deus chama o homem: «o Reino, a visão de Deus, a participação na natureza divina, a vida eterna, a filiação divina, o repouso em Deus». A bem-aventurança da vida eterna é apresentada como dom gratuito e sobrenatural, não como conquista humana.
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