Cardeais
O Cardeal Camerlengo
Cardeal que administra os bens temporais e os assuntos ordinários da Santa Sé durante a Sé vacante, sem deter poder de governo sobre a Igreja universal, prerrogativa do Colégio de Cardeais e depois do novo papa.

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O ofício de camerlengo remonta ao final do século XI, quando o papa Gregório VII suprimiu o antigo arquidiaconato romano e transferiu suas funções de administração patrimonial a um prelado que passou a ser chamado «camerarius» — o «camareiro» encarregado da Câmara Apostólica, a cúria financeira central do papado. Ao longo da Idade Média, o cargo ganhou peso extraordinário: durante a longuíssima vacância entre 1268 e 1271, que se estendeu por quase três anos antes da eleição de Gregório X, os próprios cardeais chegaram a se preocupar em providenciar substituto imediato caso o camerlengo em exercício morresse, tamanha era sua importância para a continuidade da administração da Igreja. Nos séculos seguintes, à frente da Câmara Apostólica, o camerlengo acumulou poderes judiciais e administrativos sobre as finanças pontifícias, e antes do século XVIII chegou a perceber rendimentos anuais da ordem de dez a doze mil escudos — equivalentes, nos Estados Pontifícios, aos de um verdadeiro ministro das Finanças, Obras Públicas e Comércio.
Esse poder entrou em declínio acentuado a partir do século XIX, primeiro com as reorganizações administrativas promovidas pelos papas Pio VII e Pio IX, depois, de modo definitivo, com a perda dos Estados Pontifícios em 1870. Hoje a Câmara Apostólica conserva sobretudo função cerimonial e transitória: cabe ao camerlengo da Santa Igreja Romana, no momento da morte ou da renúncia do papa, administrar os bens e os direitos temporais da Sé Apostólica durante todo o período de vacância — sem, no entanto, deter qualquer poder de governo sobre a Igreja universal, prerrogativa exclusiva do papa e, entre eleições, do próprio Colégio de Cardeais reunido em conclave. É ao camerlengo que cabe, tradicionalmente, constatar e certificar oficialmente a morte do pontífice e lacrar seus aposentos privados, além de solicitar a todas as repartições da Cúria Romana relatórios sobre sua situação patrimonial e sobre os assuntos pendentes; recebe também as cópias do orçamento corrente e projetado da Santa Sé e demais informações econômicas úteis aos cardeais e ao futuro papa, e, ao lado do decano do Colégio Cardinalício, desempenha papel central na organização das congregações preparatórias ao conclave.
Um dos ritos mais conhecidos associados ao ofício é a inutilização do Anel do Pescador — o selo pessoal de cada papa, usado desde o século XIII para autenticar documentos — na presença de cardeais testemunhas: a prática de destruí-lo fisicamente, para impedir que impostores usassem selos falsos em documentos, remonta, segundo a tradição, a 1521 e foi mantida até 2013, muito depois de os selos pontifícios terem sido funcionalmente substituídos por um carimbo, em meados do século XIX. Com a renúncia de Bento XVI, em 2013, a prática foi alterada para um risco profundo em forma de cruz gravado sobre o selo com um cinzel, suficiente para invalidá-lo sem destruí-lo fisicamente; o mesmo procedimento se aplica ao selo de chumbo (a «bula») usado para lacrar documentos pontifícios.
As atribuições do camerlengo são deliberadamente limitadas: o direito canônico — hoje sistematizado sobretudo pela constituição apostólica «Universi Dominici Gregis», de 1996 — é explícito ao afastar dele qualquer poder de governo próprio do papa: não pode nomear bispos, publicar documentos de magistério, unir ou dividir dioceses, nem tomar qualquer decisão que extrapole a administração ordinária e a preparação material do conclave. Ao contrário do que ocorria em séculos passados, quando o camerlengo chegava a deter poderes quase soberanos durante a vacância, a própria «Universi Dominici Gregis» transferiu formalmente ao Colégio de Cardeais reunido em conjunto — e não a um único oficial — a autoridade sobre os assuntos ordinários da Sé Apostólica enquanto o trono de Pedro permanece vago. Auxiliado por três cardeais assistentes sorteados periodicamente entre os cardeais eleitores presentes em Roma, o camerlengo permanece em suas funções apenas até a eleição do novo papa, quando cessa automaticamente seu mandato extraordinário — sendo, ao lado do cardeal penitenciário-mor, um dos únicos dois ofícios da Cúria Romana cujas funções não se interrompem com a vacância da Sé.
Em ao menos uma ocasião notável, o próprio camerlengo em exercício acabou eleito papa: em 1939, Eugenio Pacelli, que ocupava simultaneamente os cargos de camerlengo, desde 1º de abril de 1935, e de secretário de Estado, foi eleito em 2 de março de 1939 — dia de seu 63º aniversário — no conclave mais breve do século XX, reunido a 1º e 2 de março daquele ano, com apenas três escrutínios, tornando-se Pio XII; foi o primeiro camerlengo a ascender diretamente ao papado desde Leão XIII, em 1878. Nas décadas recentes, o ofício foi ocupado pelo cardeal francês Jean-Louis Tauran, e depois pelo cardeal irlandês-americano Kevin Joseph Farrell — nascido em Dublin, em 2 de setembro de 1947, prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida desde 2016 —, nomeado camerlengo por Francisco e instalado em 14 de fevereiro de 2019. Foi Farrell quem exerceu essas funções na Sé vacante aberta com a morte do papa Francisco, em 21 de abril de 2025, atuando então como regente de fato da Santa Sé — inclusive retirando o Anel do Pescador do dedo de Francisco —, até a eleição do papa Leão XIV, em 8 de maio de 2025.
Fontes
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Sé Vacante
Glossário
Período em que uma sé episcopal — inclusive a de Roma — está sem titular, por morte, renúncia ou transferência do bispo.
Sé Vacante
Estrutura da Igreja
Período entre a morte ou renúncia válida de um Papa (ou de um bispo diocesano) e a eleição ou nomeação de seu sucessor, durante o qual o governo ordinário fica suspenso ou limitado.

O Conclave
Cardeais
A reunião isolada dos cardeais eleitores encarregada de eleger o novo Bispo de Roma, hoje regulada pela constituição apostólica «Universi Dominici Gregis».
Dicastério
Glossário
Departamento da Cúria Romana responsável por uma área específica do governo da Igreja universal.