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Arte Sacra · Símbolo 1

O Crucifixo

A cruz com o corpo de Cristo, símbolo central da fé católica, exigida pela norma litúrgica junto a cada altar de celebração.

O Crucifixo
sailko — Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

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O crucifixo — a cruz com a imagem do corpo de Cristo crucificado — condensa visualmente o núcleo da fé cristã: a Paixão e a Morte de Jesus como ato supremo de amor redentor. Distingue-se da cruz nua (mais frequente em contextos protestantes, que tendem a enfatizar a Ressurreição) por manter visível o Crucificado. Sua legitimidade doutrinal remonta ao Segundo Concílio de Niceia (787), o sétimo concílio ecumênico, que, encerrando a crise iconoclasta, reafirmou a veneração das imagens sagradas e distinguiu a adoração (latria), devida somente a Deus, da veneração (dulia) prestada às imagens — cuja honra passa a quem nelas é representado. O argumento decisivo era cristológico: porque o Verbo se fez homem e teve um rosto visível, é lícito representá-lo.

Na disciplina litúrgica católica, o crucifixo é exigido junto ao altar. A Instrução Geral do Missal Romano (edição típica terceira, 2002), no n. 308, determina: "Haja também sobre o altar ou perto dele uma cruz com a imagem de Cristo crucificado, que seja claramente visível ao povo reunido. Convém que essa cruz [...] permaneça junto ao altar também fora das celebrações litúrgicas". A norma, portanto, não pede meramente uma cruz, mas uma cruz com a effigie Christi crucifixi — o corpo do Crucificado — bem visível à assembleia.

A presença do crucifixo em espaços públicos foi objeto de disputa jurídica recente. No caso Lautsi contra a Itália, a Segunda Câmara do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos decidiu em 3 de novembro de 2009, por unanimidade, que a exposição obrigatória do crucifixo nas salas de aula estatais italianas violava a liberdade religiosa e o direito à educação. A decisão provocou reação inédita: dez Estados-membros do Conselho da Europa ingressaram na causa em apoio à Itália, e o governo italiano recorreu à Grande Chambre, que em 18 de março de 2011 reverteu o julgado por 15 votos a 2, entendendo que a decisão de perpetuar uma tradição cabe à margem de apreciação nacional e que "um crucifixo na parede é um símbolo essencialmente passivo", cuja influência sobre os alunos não se compara à do discurso didático.

Como obra de arte, um dos crucifixos mais célebres é o de Cimabue para a Basílica de Santa Croce, em Florença, pintado em têmpera sobre madeira por volta de 1265 (cerca de 4,5 metros de altura), encomendado pelos frades franciscanos e uma das primeiras obras italianas a romper com o estilo bizantino tardio pela representação mais corpórea de Cristo. Sobreviveu à inundação do rio Arno em 4 de novembro de 1966, que lhe arrancou boa parte da superfície pintada — estima-se a perda de cerca de 60% da pintura original — e foi submetido a uma restauração de dez anos conduzida por Umberto Baldini e Ornella Casazza, com método que optou por não disfarçar as lacunas. Sua fotografia submersa tornou-se uma das imagens-símbolo da catástrofe artística de Florença.

O crucifixo permanece, além do uso litúrgico, um dos sinais identitários mais imediatos da presença católica em lares, escolas e espaço público, e objeto recorrente de debates sobre laicidade do Estado e liberdade religiosa.

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Fontes

  • Instrução Geral do Missal Romano, edição típica terceira (2002), n. 308 (texto latino e traduções oficiais)
  • Segundo Concílio de Niceia (787), decreto sobre a veneração das imagens sagradas
  • Lautsi e outros contra Itália, Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, Câmara (3/11/2009) e Grande Chambre (18/3/2011), req. 30814/06
  • Crucifix (Cimabue, Santa Croce), Wikipedia em inglês, e Museo dell'Opera di Santa Croce (ficha da obra e restauração de 1966)
  • Umberto Baldini e Ornella Casazza, 'El Crucifijo de Cimabue' (restauração do Cristo de Cimabue)

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