Heresias e Cismas
Modernismo (teológico)
Corrente do início do século XX que buscava reinterpretar a doutrina católica à luz da filosofia moderna e da crítica histórica, condenada por Pio X.

- Tipo
- Heresia
- Século
- XX
- Condenação
- Encíclica Pascendi Dominici Gregis e decreto Lamentabili Sane (1907)
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No final do século XIX e início do XX, um conjunto heterogêneo de biblistas, filósofos e teólogos católicos — mais uma sensibilidade difusa do que uma escola organizada e coesa — passou a defender que a Igreja não podia permanecer alheia aos métodos da crítica histórico-literária aplicada à Bíblia e às correntes filosóficas imanentistas então dominantes na cultura europeia. Seu principal expoente foi o padre e exegeta francês Alfred Loisy, que em obras como "O Evangelho e a Igreja" (1902) aplicou às Escrituras métodos de análise histórica que relativizavam a historicidade literal de vários episódios evangélicos e sugeriam que boa parte da estrutura dogmática e institucional da Igreja teria se desenvolvido progressivamente ao longo do tempo, como resposta às necessidades religiosas de cada época, mais do que como revelação fixada de modo definitivo desde a origem. Outro nome central foi o padre jesuíta irlandês George Tyrrell, que explorava uma teologia da experiência religiosa como fonte primária da fé, e o barão Friedrich von Hügel, figura que serviu de elo entre esses autores em diferentes países europeus.
O que unia essas correntes, aos olhos de Roma, era uma tendência comum a relativizar a fixidez objetiva dos dogmas, tratando-os como fórmulas históricas contingentes, expressões simbólicas da experiência religiosa coletiva sujeitas a evolução, mais do que verdades reveladas por Deus de modo definitivo e imutável — e a subordinar a autoridade doutrinal da Igreja ao juízo da consciência religiosa individual e da pesquisa científica em constante mudança.
O papa Pio X respondeu com dois documentos praticamente simultâneos em 1907: o decreto do Santo Ofício "Lamentabili Sane", que elencou e condenou 65 proposições consideradas modernistas extraídas sobretudo dos escritos de Loisy, e a encíclica "Pascendi Dominici Gregis", de setembro daquele ano, que ofereceu uma análise sistemática — e sintética até o ponto de unificar autores de posições bastante diferentes entre si — do que chamou de "modernismo", definindo-o como "síntese de todas as heresias" por reunir, a seu ver, elementos de agnosticismo filosófico, imanentismo vital, evolucionismo dogmático e relativismo histórico numa mesma atitude de fundo hostil à noção católica de revelação e de autoridade magisterial. A encíclica determinou ainda medidas disciplinares concretas, como a criação de "conselhos de vigilância" diocesanos e, em 1910, a exigência do "juramento antimodernista" para clérigos, professores de seminário e candidatos a ordens sacras — obrigação que perduraria formalmente até 1967.
As consequências pessoais foram duras: Loisy foi excomungado em 1908 e afastou-se definitivamente da Igreja, tornando-se professor de história das religiões no Collège de France; Tyrrell, já expulso da Companhia de Jesus em 1906, foi também excomungado e morreu em 1909 sem reconciliar-se com a hierarquia. O episódio deixou um clima de suspeita intelectual que se estenderia por décadas na exegese e na teologia católicas, e cuja superação — sobretudo quanto à legitimidade do método histórico-crítico no estudo da Bíblia — só viria de modo mais aberto com a encíclica "Divino Afflante Spiritu" (1943) de Pio XII e, de modo mais amplo, com o Concílio Vaticano II.
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