Concílios
Niceia II e a veneração das imagens sagradas
O Segundo Concílio de Niceia (787) encerrou a primeira fase da controvérsia iconoclasta bizantina, definindo que as imagens sagradas podem ser veneradas, mas não adoradas como só a Deus é devido.
- Anos
- 787
- Local
- Niceia, Bitínia (atual İznik, Turquia)
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A controvérsia iconoclasta que Niceia II encerraria em sua primeira fase começou por volta de 726-730, quando o imperador Leão III, o Isáurico, possivelmente influenciado por correntes teológicas do Oriente próximo hostis a qualquer representação do divino, e apoiado numa leitura rigorista do mandamento bíblico contra a idolatria, iniciou uma política oficial de remoção e destruição de ícones religiosos em todo o Império Bizantino. Seu filho Constantino V radicalizou essa política de modo sistemático, convocando em 754 um concílio reunido no palácio de Hieria — sem qualquer representação dos patriarcados de Roma, Alexandria, Antioquia ou Jerusalém — que condenou formalmente a produção e o culto de imagens sagradas como forma de idolatria, desencadeando décadas de perseguição a monges e clérigos que resistiam à destruição sistemática de ícones em igrejas e mosteiros.
A reviravolta veio com a morte do imperador Leão IV, em 780, e a ascensão de sua viúva, Irene, como imperatriz-regente em nome do filho menor. Irene, veneradora de imagens, articulou cuidadosamente o retorno à ortodoxia iconódula, nomeando para o patriarcado de Constantinopla um leigo de sua confiança, Tarásio, que aceitou o cargo sob a condição de que se convocasse um novo concílio ecumênico. Reunido finalmente em Niceia em 787, depois de uma primeira tentativa fracassada em Constantinopla no ano anterior, o concílio contou com cerca de 350 participantes, a maioria bispos orientais, com legados do papa Adriano I, que confirmou plenamente suas decisões.
O cerne da contribuição doutrinal de Niceia II foi a distinção precisa entre dois tipos de honra religiosa que a controvérsia iconoclasta havia perigosamente confundido: a «veneração» (em grego, «proskýnesis») devida às imagens de Cristo, de Nossa Senhora, dos anjos e dos santos — comparável, em natureza, à honra que já se prestava tradicionalmente à cruz, ao livro dos Evangelhos e a outros objetos sagrados — e a «adoração» («latreia»), que é devida exclusivamente a Deus, sob pena de idolatria. O concílio explicou essa distinção com um argumento de simplicidade notável: quem venera uma imagem presta homenagem, através dela, à pessoa nela representada, e não à tábua pintada, à tinta ou ao pigmento de que é feita — o suporte material é apenas veículo, nunca objeto final, da veneração religiosa.
Niceia II definiu ainda, de modo positivo, que convém e se deve colocar imagens sagradas nas igrejas, sobre vasos e vestes litúrgicas, em paredes, tecidos e mesmo em residências privadas dos fiéis, reconhecendo o valor catequético e devocional das imagens para uma população em boa parte iletrada, para quem os ícones funcionavam como uma verdadeira «Bíblia dos pobres» em forma visual. Essa base doutrinal permanece até hoje invocada pela Igreja Católica — e também pelas Igrejas ortodoxas, para as quais a questão dos ícones tem peso teológico ainda maior — para justificar o uso de imagens, estátuas e ícones tanto na liturgia oficial quanto na devoção popular, distinguindo sempre, como fez Niceia II, entre honrar uma representação e adorar aquilo que só a Deus é devido.
A definição de 787 não encerrou de vez a controvérsia: o Império Bizantino viveria um segundo período iconoclasta entre 815 e 843, sob novos imperadores hostis às imagens, superado apenas com o chamado «Triunfo da Ortodoxia», em 843, quando a imperatriz-regente Teodora restaurou definitivamente o culto às imagens — episódio que a liturgia bizantina celebra até hoje no primeiro domingo da Quaresma como marco simbólico da vitória final da fé iconódula.
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Concílio de Niceia II
Concílios
Sétimo concílio ecumênico (787): condenou o iconoclasmo e definiu a legitimidade da veneração das imagens sagradas, distinta da adoração devida só a Deus.

São João Damasceno
Doutores da Igreja
Monge e teólogo do século VIII, último grande Padre da Igreja grega, defensor das imagens sagradas contra o iconoclasmo.

Concílio de Constantinopla IV
Concílios
Oitavo concílio ecumênico para Roma (869-870): depôs Fócio, restaurou Inácio, promulgou 27 cânones e definiu a veneração das imagens; sua legitimidade é contestada pelo Oriente, que reconhece em seu lugar o sínodo de 879-880.
Iconoclastia
Heresias e Cismas
Movimento que rejeitava a veneração de imagens sagradas como idolatria, chegando a promover a destruição sistemática de ícones no Império Bizantino.
