Ir para o conteúdo
Compêndio CatólicoCatálogo de consulta · fé, doutrina e vida católica
Acender uma vela

Apologética

Existe continuidade histórica real entre os Apóstolos e o papado de hoje, ou é uma construção tardia?

Já no fim do século I, Clemente de Roma falava de uma sucessão ordenada dos Apóstolos; e, por volta do ano 180, Irineu de Lyon listava nominalmente os bispos de Roma desde Pedro até Eleutério, seu contemporâneo.

Existe continuidade histórica real entre os Apóstolos e o papado de hoje, ou é uma construção tardia?
Objeção
O papado, como existe hoje, não seria uma invenção institucional muito posterior aos Apóstolos?

Tamanho do texto

A objeção costuma supor que a estrutura de bispos sucedendo os Apóstolos, com um papel de destaque para o bispo de Roma, só teria se consolidado séculos depois, por razões políticas. Os testemunhos mais antigos, porém, situam essa consciência muito cedo. O documento cristão mais antigo fora do Novo Testamento a tratar do tema é a Primeira Carta de Clemente aos Coríntios (c. 80-96), escrita pela Igreja de Roma para intervir numa disputa em que presbíteros de Corinto haviam sido depostos. Clemente lembra que os Apóstolos, sabendo que haveria contendas a respeito do episcopado, "constituíram" bispos e diáconos "e depois deixaram instruções de que, quando eles adormecessem, outros homens aprovados lhes sucedessem no ministério" (1 Clemente 42,4-44,2). É considerada a afirmação mais antiga do princípio da sucessão apostólica.

Um dos testemunhos mais completos, ainda no século II, é o de Santo Irineu de Lyon, discípulo de Policarpo de Esmirna (que por sua vez fora discípulo do apóstolo João). Por volta do ano 180 — a obra «Contra as Heresias» é datada entre 174 e 189, precisamente porque sua lista de bispos de Roma inclui Eleutério, então vivo —, Irineu apresenta, no Livro III, cap. 3, uma lista nomeada e contínua dos bispos de Roma: Pedro e Paulo, Lino, Anacleto, Clemente, Evaristo, Alexandre, Sixto, Teléforo, Higino, Pio, Aniceto, Sóter, e finalmente Eleutério, "que agora, em décimo segundo lugar desde os Apóstolos, possui a herança do episcopado". O objetivo é polêmico: refutar os gnósticos, mostrando que a fé apostólica podia ser rastreada publicamente através dessa sucessão, ao contrário das tradições secretas que os hereges alegavam possuir.

Irineu chama a Igreja de Roma de "a maior, a mais antiga e universalmente conhecida, fundada e organizada em Roma pelos dois mais gloriosos Apóstolos, Pedro e Paulo", e escreve que "é necessário que toda Igreja concorde com esta Igreja por causa de sua origem mais eminente" (a expressão latina é potiorem principalitatem, "autoridade/primazia mais forte"). A mesma preocupação com a lista dos primeiros bispos romanos aparece em Hegésipo, autor do século II que residiu em Roma e cujo testemunho foi transmitido por Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica IV, 11), que também registra a tradição da sucessão episcopal romana desde Pedro. É, portanto, testemunho já do século II sobre um papel de referência atribuído à sé romana — embora o alcance exato dessa primazia ainda seja objeto de debate entre historiadores e entre as próprias tradições cristãs.

A questão histórica genuinamente discutida não é, portanto, se havia sucessão episcopal desde cedo — isso é bem documentado por Clemente, Inácio de Antioquia, Irineu e a tradição registrada por Eusébio —, mas o alcance preciso da autoridade que essa sucessão conferia ao bispo de Roma em particular. Esse ponto foi desenvolvido doutrinalmente ao longo dos séculos e culminou na definição do Concílio Vaticano I (1870). A constituição dogmática «Pastor aeternus», promulgada por Pio IX em 18 de julho de 1870, define quatro doutrinas: a primazia apostólica conferida a Pedro, a perpetuidade dessa primazia nos pontífices romanos, a primazia papal como supremacia e a infalibilidade do Papa quando fala ex cathedra — isto é, quando, em virtude de sua suprema autoridade apostólica, define doutrina de fé ou de moral, sendo tais definições "irreformáveis por si mesmas, e não pelo consentimento da Igreja". A votação final foi de 533 votos a favor e apenas 2 contra, tendo cerca de 60 bispos da minoria deixado Roma para não participar da aprovação; os dois votos contrários foram dos bispos Aloisio Riccio e Edward Fitzgerald. Distinguir o fato bem atestado da sucessão episcopal primitiva do desenvolvimento posterior da doutrina papal é o que torna o diálogo histórico mais preciso.

Continue sua leitura

← Todas as entradas de Apologética