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Apologética

A Igreja Católica rejeita o princípio protestante da "Sola Scriptura"?

A própria Escritura, em 2Ts 2,15, manda os cristãos guardar as tradições transmitidas tanto por palavra quanto por carta — base bíblica que a Igreja usa contra a suficiência da Bíblia sozinha.

A Igreja Católica rejeita o princípio protestante da "Sola Scriptura"?
Objeção
Se a Bíblia é a única regra de fé, por que a Igreja Católica dá tanto peso à Tradição?

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A doutrina protestante da "Sola Scriptura" — a Bíblia como única fonte infalível de autoridade para a fé e a prática cristã — é apresentada por seus defensores (sobretudo nas tradições luterana e reformada) como o critério que garantiria a pureza do Evangelho, sem intermediários humanos falíveis. A formulação clássica reformada está em documentos confessionais como a Confissão de Westminster (1647), cujo capítulo I, §6, afirma que todo o conselho de Deus "concernente a todas as coisas necessárias à sua própria glória, à salvação do homem, à fé e à vida, está expressamente posto na Escritura ou por boa e necessária consequência dela pode ser deduzido", sem que nada lhe possa ser acrescentado "nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens". Note-se que a mesma confissão, no §3, exclui os livros deuterocanônicos do cânon, e no §4 afirma que a autoridade da Escritura "não depende do testemunho de homem algum, ou da Igreja", mas somente de Deus; e no §5 admite que "o testemunho da Igreja" move a estimar a Escritura, embora a persuasão plena venha do testemunho interior do Espírito. Os teólogos luteranos costumam resumir o princípio dizendo que a Escritura é a "norma normans", a regra que rege todas as demais regras.

A Igreja Católica responde, em primeiro lugar, com a própria Escritura. Em 2 Tessalonicenses 2,15, Paulo exorta os fiéis a "ficar firmes e reter as tradições (em grego, paradóseis) que aprenderam, seja por palavra, seja por carta nossa" — colocando explicitamente a pregação oral (Tradição) e a carta escrita (Escritura) no mesmo nível de autoridade vinculante, sem sugerir que só a segunda bastaria. A mesma lógica aparece em 1 Coríntios 11,2 e em 2 Timóteo 2,2, onde a fé é confiada a uma corrente viva de transmissão. A resposta magisterial clássica veio no Concílio de Trento: na sessão IV, de 8 de abril de 1546, o decreto sobre as Escrituras canônicas declarou que a verdade do Evangelho está contida "nos livros escritos e nas tradições não escritas" recebidas dos Apóstolos, e que o Concílio as acolhe "com igual afeto de piedade e reverência", fixando o cânon e declarando autêntica a antiga edição latina Vulgata; quem rejeitasse conscientemente essas tradições estaria sob anátema. Foi a resposta direta ao princípio reformado.

Há também um argumento histórico decisivo: os primeiros cristãos viveram décadas antes que o cânon do Novo Testamento estivesse definido, e a própria noção de uma lista fechada surgiu na vida da Igreja. O Fragmento Muratoriano, descoberto por Ludovico Antonio Muratori na Biblioteca Ambrosiana de Milão e publicado em 1740 nas «Antiquitates Italicae Medii Aevi», é uma cópia latina preservada num códice dos séculos VII-VIII procedente do mosteiro de Bobbio, com 85 linhas, e o mais antigo catálogo conhecido de livros do Novo Testamento; o original, provavelmente grego, é datado de cerca de 170-200, pois o autor se refere ao episcopado de Pio I de Roma (morto em 157) como recente. A lista completa dos 27 livros só aparece de forma clara na 39ª Carta Festal de Atanásio de Alexandria, de 367, e em enumerações sinodais posteriores, como o Sínodo de Roma (382) sob o papa Dâmaso I. A própria decisão sobre quais livros pertenciam à Escritura inspirada foi tomada pela Igreja com base na Tradição apostólica viva — e não o contrário.

Para a Igreja Católica, portanto, Escritura e Tradição não competem nem são duas fontes separadas: "formam um único depósito sagrado da Palavra de Deus" (Dei Verbum, n. 10), ambas brotando do mesmo manancial e transmitidas pelos Apóstolos. O Catecismo (nn. 80-83) e o Concílio Vaticano II insistem que a interpretação autêntica da Palavra de Deus, escrita ou transmitida, foi confiada ao Magistério vivo da Igreja, que, no entanto, "não está acima da Palavra de Deus, mas a serve" (Dei Verbum, n. 10). Convém notar que mesmo os reformadores não dispensavam os credos e a tradição como contexto interpretativo — a própria Confissão de Westminster reconhece o papel do testemunho da Igreja e da iluminação interior do Espírito —; a disputa católica não é contra o uso da Tradição, mas contra a tese de que a Escritura sozinha, desligada da Tradição viva da Igreja, seja o único critério infalível de fé.

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Fontes

  • 2 Tessalonicenses 2,15; 1 Coríntios 11,2; 2 Timóteo 2,2
  • Concílio de Trento, sessão IV (8 de abril de 1546), Decreto sobre as Escrituras canônicas
  • Concílio Vaticano II, Constituição dogmática Dei Verbum (1965), n. 10
  • Catecismo da Igreja Católica, nn. 80-83
  • Confissão de Westminster (1647), cap. I, §§3-6
  • Fragmento Muratoriano (cópia dos séculos VII-VIII, códice de Bobbio na Biblioteca Ambrosiana de Milão; original c. 170-200; publicado por L. A. Muratori em 1740)
  • Atanásio de Alexandria, 39ª Carta Festal (367)

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