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Apologética

A Inquisição matou milhões de pessoas, como sugere o senso comum?

Desde que o Arquivo da Congregação para a Doutrina da Fé foi aberto à consulta livre em janeiro de 1998, estudos baseados nos próprios processos revisaram radicalmente para baixo os números da "lenda negra": as execuções da Inquisição espanhola foram alguns milhares, não milhões.

A Inquisição matou milhões de pessoas, como sugere o senso comum?
Objeção
Não foi a Inquisição responsável pela morte de milhões de pessoas consideradas hereges?

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A imagem popular da Inquisição como máquina de extermínio em massa — com números na casa dos milhões — foi em grande parte moldada pela chamada "lenda negra", propaganda produzida sobretudo por potências rivais da Espanha e por autores protestantes a partir do século XVI, em meio a disputas políticas e religiosas. Um marco dessa corrente foi o cálculo do espanhol Juan Antonio Llorente que, em 1817, ex-secretário do próprio Santo Ofício, chegou a cifras hoje consideradas absurdamente infladas (dezenas de milhares de condenados à morte, das quais cerca de nove mil apenas sob Torquemada), tidas pela historiografia atual como insustentáveis.

A pesquisa histórica moderna reverteu esses números com base nos próprios processos arquivados. Um passo decisivo foi a abertura, em janeiro de 1998, do Arquivo da Congregação para a Doutrina da Fé (o antigo Santo Ofício), oficializada em cerimônia presidida pelo então prefeito do dicastério, o cardeal Joseph Ratzinger, na Academia Nacional dos Lincei, em Roma, permitindo aos historiadores consultar livremente o acervo. No mesmo ano, realizou-se no Vaticano, de 29 a 31 de outubro de 1998, um simpósio histórico internacional sobre a Inquisição organizado por Agostino Borromeo, cujas atas foram publicadas em 2003 pela Biblioteca Apostólica Vaticana (Studi e Testi, vol. 417). Em 2000, o balanço desse trabalho foi apresentado a João Paulo II, que voltou a reconhecer os «dramas ligados à Inquisição» e classificou a Inquisição como forma de «contra-testemunho» e «método de intolerância e de violência no serviço da verdade que deforma o rosto da Igreja».

Os números revisados são muito menores do que os divulgados popularmente. O historiador britânico Henry Kamen, uma das maiores autoridades no tema, com base em arquivos e cerca de 44 mil processos, chegou a uma estimativa de no máximo cerca de três mil execuções ao longo de toda a história do tribunal espanhol (1478-1834), observando que tribunais civis contemporâneos aplicavam a pena capital com proporção semelhante ou maior — citando, por exemplo, que os tribunais dos Países Baixos executaram muito mais hereges no mesmo período do que a Inquisição. Borromeo, por sua vez, num estudo apresentado no simpósio, indicou que, dos cerca de 125 mil processos da Inquisição espanhola, cerca de 1% terminaram em execução; em números absolutos, dos 44.674 julgamentos entre 1540 e 1700, apenas 1,8% receberam pena de morte, e cerca de 1,7% deles foram execuções «em efígie» (de contumazes ou já falecidos). No conjunto, menos da metade dos acusados foi condenada, e a maioria das penas era leve — penitências, multas, exílios. O caso mais sangrento foi o do início: sob o primeiro Inquisidor-Geral, Tomás de Torquemada (1483-1498), estima-se hoje entre 1.200 e 2.000 execuções, sobretudo de judeus conversos, muito abaixo das dezenas de milhares historicamente propagadas.

Nada disso torna a Inquisição uma instituição sem graves problemas. O recurso à tortura nos interrogatórios (regulamentado e limitado, mas real), a delação e a própria existência de tribunais eclesiásticos dotados de poder coercitivo civil são hoje reconhecidos como incompatíveis com a liberdade religiosa ensinada pelo Concílio Vaticano II, sobretudo na declaração «Dignitatis Humanae» (1965). Em 2000, o documento «Memória e Reconciliação: a Igreja e as culpas do passado», da Comissão Teológica Internacional (estudo que teve início a pedido do então cardeal Ratzinger em vista do Jubileu, aprovado sob forma específica em 1999 e publicado com data de 7 de março de 2000), tratou justamente de como a Igreja deve avaliar criticamente episódios como esse sem cair na exacerbação nem na negação.

A conclusão que se impõe é dupla: rejeitar tanto a lenda negra que inflaciona as cifras para milhões quanto qualquer tentativa de minimizar o sofrimento real das vítimas. Conforme observou o próprio Borromeo, os historiadores hoje "já não utilizam este tema para defender ou atacar a Igreja"; os arquivos abertos permitem um juízo documentado, e é dele — não da propaganda de qualquer dos lados — que a Igreja procura partir.

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Fontes

  • Agostino Borromeo (org.), «L'Inquisizione», atas do Simpósio Internacional, Cidade do Vaticano, 29-31 de outubro de 1998 (Biblioteca Apostólica Vaticana, Studi e Testi 417, 2003)
  • Henry Kamen, «The Spanish Inquisition: A Historical Revision» (Yale University Press, 4ª ed., 2014)
  • Vatican News, «Simpósio sobre a Inquisição nos 20 anos de abertura dos Arquivos da Doutrina da Fé», 2018
  • Agência ECCLESIA, cobertura do simpósio (dados de Borromeo: 3,5% de penas de morte na Espanha, ~6% em Portugal)
  • Comissão Teológica Internacional, «Memória e Reconciliação: a Igreja e as culpas do passado» (publicado em 7 de março de 2000)
  • Concílio Vaticano II, declaração «Dignitatis Humanae», 1965

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