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Caminho de Perfeição

Manual de vida de oração escrito por Santa Teresa de Ávila para as irmãs de seu primeiro convento reformado, redigido duas vezes por causa da censura eclesiástica e publicado postumamente em Évora, em 1583.

Caminho de Perfeição
Autor
Santa Teresa de Ávila
Publicação
c. 1566
Gênero
Espiritualidade

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Segunda obra de Santa Teresa de Ávila, o "Caminho de Perfeição" nasceu no mosteiro de São José de Ávila — o primeiro convento da reforma carmelita descalça —, quando Teresa era sua priora e formadora. As próprias irmãs insistiram ("hão-me tanto importunado") para que ela pusesse por escrito as lições que lhes dava de viva voz; não podendo elas aceder aos livros de espiritualidade, então proibidos pela Inquisição espanhola a partir do índice de 1559. Teresa escreveu com licença de seu confessor, o dominicano Domingo Báñez. Composto provavelmente em 1566, logo depois do "Livro da Vida", o texto destina-se expressamente às freiras do mosteiro de São José, mas termina por servir à formação espiritual de todos os carmelos que a Santa foi fundando.

A obra conserva-se em dois autógrafos, o que a torna um caso singular: a primeira redação, mais espontânea, coloquial e atrevida, com 73 capítulos, está na biblioteca do Real Mosteiro de El Escorial; a segunda, mais estruturada, reduzida a 42 capítulos, está nas carmelitas descalças de Valladolid. A razão da reescrita é histórica e revela as tensões da Espanha do século XVI: o confessor e censor García de Toledo devolveu o manuscrito salpicado de tachas e advertências, exigindo que Teresa o escrevesse de novo. Foram eliminadas precisamente as passagens mais polêmicas — a "apologia das mulheres" orantes (capítulo 3 da primeira redação), a crítica aos inquisidores que proibiam livros espirituais e as referências à sua própria experiência mística —, num contexto de antifeminismo e de suspeita contra toda literatura religiosa em língua vulgar. A própria Teresa ainda arrancaria de seu punho o capítulo-emblemático (cerca de cinco fólios) em que comparava a humildade ao jogo de xadrez, talvez para não parecer leviana ao citar um jogo que moralistas da época condenavam.

A matéria do livro divide-se em duas grandes partes: os primeiros 26 capítulos reúnem conselhos sobre a vida contemplativa (pobreza, humildade, amor ao próximo, mortificação); e os últimos dezesseis oferecem uma meditação orante do Pai-Nosso, tomado como síntese de toda oração cristã — motivo pelo qual a própria autora chamava o escrito de "El Paternóster". É também um testemunho da chamada "polêmica da oração" da época, o conflito entre os "teólogos" e os "espirituais" e místicos, pano de fundo das figuras de Melchor Cano, Fernando de Valdés e Carranza. Seu título consagrado, ausente dos autógrafos originais (nas capas escritas por outra mão), acabou fixando-se nas cópias por ela revistas.

Teresa só tardiamente pensou em imprimir a obra. Em 1579 enviou uma cópia ao seu amigo e mecenas português dom Teutonio de Bragança, então arcebispo de Évora, para que a publicasse nas prensas daquela cidade. A censura lisboeta impôs novos reparos — entre eles suprimir o capítulo 31, sobre a oração de quietude — e a edição, embora aprovada em Lisboa em outubro de 1580, só veio à luz em fevereiro de 1583, poucos meses após a morte da autora. A primeira edição surgiu assim em Évora, sob o título "Tratado que escreveu a Madre Teresa a las monjas de su Orden", precedida de uma elogiosa carta introdutória de dom Teutonio. Seguiram-se a edição de Salamanca (1585) preparada por Jerônimo Gracián e a de Valência (1587). Em 1588, na edição das obras completas organizada por frei Luís de León, o mestre salmantino reintegrou ao texto numerosas passagens da primeira redação — criando um texto híbrido só corrigido pelos editores críticos modernos; o texto integral da versão primitiva foi publicado pela primeira vez por Vicente de la Fuente em 1861.

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Fontes

  • Teresa de Ávila, "Camino de Perfección" (redações de El Escorial e de Valladolid), em teresavila.com
  • Guía doctrinal de Camino de Perfección (estudo sobre as duas redações e o censor García de Toledo)
  • Fidelino de Figueiredo / artigo "El Camino de Perfección: génesis y aspectos lingüísticos", Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes
  • Wikipedia espanhola, verbete "Camino de perfección" (edição de Évora, 1583; Salamanca, 1585; Valência, 1587)

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